30 set 2025

Conferência “Desenvolvimento da Vacina Brasileira SM14 contra a Esquistossomose”

Nesta segunda-feira, 29 de setembro de 2025, foi realizada a atividade do eixo temático Pesquisa Farmacêutica, Toxicológica e Clínica, parte integrante do programa educacional promovido pela Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil.

O webinar marcou mais um importante momento de convergência entre ciência, inovação e saúde, com a realização da conferência intitulada “Desenvolvimento da Vacina Brasileira SM14 contra a Esquistossomose”, proferida pela renomada pesquisadora Dra. Miriam Tendler.

A sessão foi conduzida por Leonardo Teixeira, acadêmico titular da Cadeira nº 30, ao lado do Dr. Leon Rabinovich, acadêmico emérito da Academia e chefe do Laboratório de Fisiologia Bacteriana do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).

Dra. Miriam Tendler é uma das maiores referências mundiais em doenças infecciosas e parasitárias, com mais de três décadas dedicadas à pesquisa e ao desenvolvimento da vacina SM14, voltada à prevenção da esquistossomose — doença negligenciada que afeta mais de 200 milhões de pessoas no mundo. Médica pela UERJ, doutora em Doenças Infecciosas e Parasitárias, pós-doutora em Biologia Molecular Parasitária pelo Marine Biological Laboratories (EUA), a Dra. Tendler é pesquisadora titular da Fiocruz e coordenadora do Laboratório de Esquistossomose Experimental do IOC.

Durante a conferência, a Dra. Tendler destacou o caráter pioneiro da vacina SM14, que representa a primeira vacina brasileira desenvolvida inteiramente no país, desde a bancada até sua produção final. Com base no antígeno SM14, isolado do Schistosoma mansoni, a vacina não só apresenta eficácia contra a esquistossomose, mas também demonstrou potencial contra a fasciolose — verminose que afeta o rebanho bovino, com importantes implicações na saúde veterinária e na agropecuária.

O imunizante, fruto de um extenso e contínuo esforço científico, alia biotecnologia de ponta, inovação farmacêutica e articulação interinstitucional, tendo sido desenvolvido em colaboração com a Fiocruz, agências de fomento como FINEP e FAPERJ, a Organização Mundial da Saúde, o Ministério da Saúde, além de empresas farmacêuticas nacionais como Biolab e Eurofarma, em uma estratégia de parceria público-privada (PPP). Nos últimos anos, o projeto passou a ser integralmente conduzido pela Fiocruz, com expectativa de que a vacina seja incorporada ao SUS dentro de dois anos e meio.

Outro aspecto enfatizado foi a complexa jornada de validação internacional da tecnologia, enfrentando resistências e preconceitos quanto à origem brasileira da vacina. Para superar esse cenário, a Dra. Tendler articulou diretamente com a Organização Mundial da Saúde e com o escritório diplomático da Missão Brasileira junto à ONU, em Genebra, garantindo respaldo técnico e institucional ao projeto.

A formulação da vacina SM14 utiliza uma proteína recombinante combinada com um adjuvante sintético derivado do Lipídio A, garantindo alto padrão de qualidade e segurança. Esse adjuvante, originalmente licenciado para uma grande indústria farmacêutica, passou por adaptações para uso clínico, sendo hoje parte fundamental da composição do imunizante.

Mais do que uma inovação científica, a vacina SM14 representa uma vitória estratégica para o Brasil, ao demonstrar que é possível realizar no país todo o ciclo de inovação em saúde: da pesquisa básica à produção final de vacinas de alta complexidade, colocando o Brasil na vanguarda mundial no enfrentamento de helmintíases e outras doenças negligenciadas.

Produzir uma vacina com fins humanitários significa também adotar um modelo econômico diferenciado, em que os ganhos financeiros são limitados justamente para garantir que o produto possa atingir o preço-base previsto nas políticas da OMS. Embora a OMS não compre diretamente os imunizantes, ela atua como intermediária entre os fabricantes e os países necessitados, e para isso é imprescindível que o produto siga critérios de preço e qualidade estabelecidos para produtos não-comerciais.

Portanto, o SM14 foi desenvolvido dentro desse marco regulatório de produto humanitário — o que reforça seu compromisso com a equidade no acesso à saúde, e também com o modelo de ciência pública a serviço da população, especialmente em países em desenvolvimento e regiões endêmicas.

Ao final da conferência, ficou evidente que o projeto SM14 vai além do desenvolvimento de um produto: é um marco de soberania científica, tecnológica e farmacêutica, além de um modelo inspirador para futuros projetos de inovação em saúde pública.

A Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil parabeniza a Dra. Miriam Tendler e sua equipe pelo trabalho incansável e visionário, que reafirma o compromisso da ciência nacional com o bem-estar coletivo e o enfrentamento das desigualdades em saúde.…

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23 set 2025

Enzimas e nanotecnologia na prevenção do envelhecimento cutâneo e câncer de pele

No dia 22 de setembro de 2025, a Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil promoveu mais uma edição do seu Programa Educacional, dentro da série de conferências do eixo “Tecnologia Farmacêutica e Cosmética”.

A convidada foi a Professora Dra. Carlota de Oliveira Rangel Iag, professora titular da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FCF-USP), coordenadora do Laboratório NanoBio e pesquisadora associada ao King’s College London. A moderação ficou a cargo da Prof.ª Dr.ª Eliana Martins Lima, acadêmica titular da cadeira nº 52.

A palestra teve como foco principal o desenvolvimento de estratégias inovadoras de fotoproteção ativa para a pele, com ênfase no uso de enzimas antioxidantes e reparadoras associadas a sistemas nanoestruturados, como polimerossomas, lipossomas e nanocápsulas poliméricas. A professora Carlota destacou que a proposta vai além da proteção convencional contra a radiação ultravioleta: trata-se de prevenir e, em alguns casos, reverter os danos moleculares causados pela exposição solar, como a formação de espécies reativas de oxigênio (ROS) e lesões no DNA celular.

 

Dentre as enzimas estudadas, a catalase, que já existe naturalmente no organismo humano, demonstrou ser eficaz na eliminação do peróxido de hidrogênio gerado após exposição UV. A catalase livre foi capaz de impedir completamente a peroxidação lipídica nas camadas da pele de orelha de porco, modelo utilizado como análogo da pele humana. A versão nanoencapsulada em polimerossomas promoveu penetração mais profunda, protegendo camadas internas, mas não o estrato córneo. Para resolver essa limitação, o grupo da professora Carlota desenvolveu uma versão peguilada da enzima, que apresentou maior estabilidade em formulação e retenção nas camadas mais superficiais da pele — uma solução promissora para aplicações tópicas.

Já a fotoliase, enzima ausente no organismo humano, mas presente em diversas espécies, demonstrou capacidade de reparar lesões no DNA do tipo ciclobutano-pirimidina (CPD), típicas da radiação UV. O grupo conseguiu desenvolver, por meio de engenharia genética, uma cepa recombinante de E. coli capaz de produzir a fotoliase de Thermus thermophilus, um microrganismo extremófilo. A enzima foi obtida com alta pureza e atividade, demonstrando capacidade de reparar até 98% dos danos ao DNA em testes in vitro.

A fotoliase também foi nanoencapsulada para avaliação de sua ação em modelos celulares. Em testes com queratinócitos humanos imortalizados expostos à radiação UV, a aplicação da enzima — livre ou nanoencapsulada — favoreceu a preservação da viabilidade celular. A encapsulação em polimerossomas demonstrou resultados mais promissores nas menores concentrações testadas, ainda que doses mais elevadas tenham mostrado certa citotoxicidade associada ao próprio sistema de entrega, e não à enzima. A análise do DNA celular indicou que a fotoliase contribui efetivamente para a reversão de danos genéticos, representando em uma importante prova de conceito.

Atualmente, os estudos avançam para modelos tridimensionais de epiderme humana reconstituída, em colaboração com a professora Silvia Stuchi, da FCF-USP, exploram novas abordagens tecnológicas para melhorar a estabilidade, liberação e direcionamento da enzima, como a bioconjugação reversível da fotoliase ao ácido hialurônico, além do desenvolvimento de uma versão mutante da fotoliase fusionada a um peptídeo de endereçamento nuclear, com o objetivo de aumentar sua eficácia intracelular.

Na parte final da palestra, a professora Carlota apresentou os desdobramentos práticos de sua pesquisa, destacando a criação da startup BioBreyer, voltada à produção de proteínas terapêuticas e insumos biotecnológicos. Entre os produtos desenvolvidos estão uma L-asparaginase mutante peguilada com atividade superior à disponível comercialmente, atualmente em fase de estudos pré-clínicos, e um ácido hialurônico de alta massa molar, produzido a partir de uma levedura segura em condições NB1. A marca Bery Biotech, surgida deste contexto, já comercializa catalase e ácido hialurônico como insumos para aplicações farmacêuticas e cosméticas.

A conferência da Prof.ª Carlota evidenciou como a pesquisa acadêmica de excelência pode se traduzir em soluções inovadoras para a saúde pública e para o setor farmacêutico, promovendo a integração entre ciência básica, desenvolvimento tecnológico e empreendedorismo. Sua abordagem interdisciplinar e translacional destaca-se como exemplo de como a biotecnologia e a nanotecnologia podem ser aliadas no enfrentamento de desafios como o envelhecimento precoce e o câncer de pele.

O Programa Educacional da Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil possui atividades gratuitas graças aos mantenedores: EMS, Sindusfarma, Eurofarma, HyperaPharma, Abafarma, Abifina, BD, FCE Pharma, Hypofarma, ICF, Sincamesp, Stevanato Group e Wheaton Brasil.

Assista a gravação na íntegra no Canal ACFB no YouTube

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16 set 2025

Programa Farmácias Vivas, Professor Francisco José de Abreu Matos

São Paulo, 15 de setembro de 2025 — A Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil (ACFB) realizou um webinar do eixo temático Biodiversidade, Plantas Medicinais e Inovação. A atividade, moderada pela acadêmica titular Raquel Castilho (cadeira nº 42), contou com a participação da Dra. Mary Anne Medeiros Bandeira, que ministrou a palestra “Programa Farmácias Vivas, Professor Francisco José de Abreu Matos”.

A Dra. Mary Anne, professora das disciplinas de farmacognosia e fitoterapia da Universidade Federal do Ceará (UFC), e atual diretora do Horto de Plantas Medicinais Francisco José de Abreu Matos, apresentou a história e o legado do programa Farmácias Vivas. O programa, criado em 1983 pelo Professor Francisco José de Abreu Matos, seu orientador, nasceu com o objetivo de transferir o conhecimento científico sobre plantas medicinais para a comunidade, de forma acessível e segura.

A palestra destacou a visão inovadora do Professor Matos, que, após uma carreira dedicada à ciência, sentiu a necessidade de “devolver para a comunidade o que [ele] aprendeu”. O programa se concretiza em unidades farmacêuticas onde os usuários têm acesso a medicamentos fitoterápicos de comprovada atividade terapêutica, preparados a partir de plantas cultivadas em hortas próprias.

Um dos pontos mais ressaltados foi a importância da etnofarmacologia — a ponte entre a medicina popular e a ciência. A palestrante enfatizou a necessidade de valorizar a sabedoria popular, resultado de mais de 40 anos de pesquisas de campo realizadas pelo Professor Matos no Nordeste brasileiro. Esses estudos, catalogados em um vasto acervo científico digitalizado, revelaram informações valiosas sobre o uso de plantas regionais e a importância da regionalização na fitoterapia. A Dra. Mary Anne ilustrou isso com exemplos como o uso de eucalipto nordestino (Eucalyptus tereticornium) ou a substituição da espinheira-santa pela aroeira-do-sertão (Myracrodruon urundeuva) em farmácias vivas do Ceará, reforçando a necessidade de políticas públicas que considerem as especificidades de cada bioma.

A apresentação também sublinhou o aspecto educativo e social do programa, que não apenas ensina a comunidade sobre o uso correto das plantas, mas também resgata a cultura e a autoestima dos participantes, utilizando métodos lúdicos como a poesia para fixar o conhecimento científico. A Dra. Mary Anne destacou a contribuição do programa para a conservação da biodiversidade, afirmando que a distribuição de mudas de espécies úteis perpetua sua existência e fomenta a consciência ambiental. O projeto pedagógico Hortos nas Escolas, por exemplo, capacita alunos do ensino fundamental e médio, perpetuando o conhecimento e valorizando o saber tradicional.

Ainda, foi evidenciado o papel fundamental do farmacêutico no processo e o impacto socioeconômico do programa, que em municípios cearenses, por exemplo, resultou em uma contenção de despesas com medicamentos de até 200%. O Horto Matriz da UFC, além de ser um centro de pesquisa, ensino e extensão, fornece mudas certificadas e treinamento, garantindo a qualidade e segurança dos fitoterápicos. Os modelos de Farmácia Viva (1, 2 e 3) demonstram a sua adaptabilidade a diferentes realidades, com o modelo 3, que envolve a produção de fitoterápicos com controle de qualidade, sendo reconhecido pela ANVISA.

Em sua fala final, a palestrante fez um apelo para que a comunidade científica se una na criação de uma medicina tradicional brasileira, que valorize o nosso tesouro de biodiversidade. A trajetória do programa Farmácias Vivas, com o reconhecimento pelo Ministério da Saúde em 2010 e a resolução da ANVISA em 2013, mostra que, apesar das dificuldades, a iniciativa é uma resposta concreta e de sucesso às políticas nacionais de plantas medicinais. A aprovação de um projeto de lei federal, já em discussão, é vista como um passo crucial para garantir verbas e a continuidade política do programa.

A palestra da Dra. Mary Anne não apenas celebrou o legado humanista do Professor Matos, mas também serviu como um lembrete da importância de uma abordagem holística e contextualizada no estudo das plantas medicinais, conectando a ciência à realidade social das comunidades e clamando por políticas públicas que apoiem e valorizem a medicina popular brasileira.

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09 set 2025

Control de Mosquitos y Otros Vectores que Transmiten Enfermedades Infecciosas en el Contexto One Health

“A luta contra vetores não é apenas uma questão de saúde pública, mas também de responsabilidade ambiental, justiça social e proteção do planeta. Precisamos unir ciência, tecnologia, educação e cidadania para enfrentar esse desafio com inteligência e solidariedade.”
Dra. Maria dels Àngels Calvo Torras

Na última segunda-feira, 8 de setembro de 2025, a Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil teve a honra de receber a renomada professora e pesquisadora Dra. Maria dels Àngels Calvo Torras, para a conferência Control de Mosquitos y Otros Vectores que Transmiten Enfermedades Infecciosas en el Contexto One Health.”, realizada em formato virtual.

Referência internacional em saúde pública, veterinária e microbiologia, a Dra. Calvo Torras é professora da Universidade Autônoma de Barcelona e membro da Real Academia de Ciências Veterinárias da Espanha. Sua palestra trouxe uma análise abrangente sobre o papel dos vetores na transmissão de doenças infecciosas e os impactos que esses processos vêm sofrendo diante de fatores como a mudança climática, a urbanização acelerada, a mobilidade internacional e a fragilidade dos sistemas de vigilância sanitária em diversas partes do mundo.

A conferência destacou a crescente importância de vetores como mosquitos, garrapatas, moscas, carrapatos, pulgas e roedores na disseminação de doenças infecciosas emergentes e reemergentes. Foram discutidos os principais vírus transmitidos por mosquitos do gênero Aedes e Culex, como:

  • Dengue, Zika e Chikungunya
  • Febre Amarela e Febre do Nilo Ocidental
  • Leishmaniose
  • Doença de Lyme
  • Encefalites virais e febres hemorrágicas
  • Entre outras zoonoses de alta relevância para a saúde pública.

Todos apresentam sintomas semelhantes nas fases iniciais, mas podem evoluir de forma grave em populações vulneráveis. A vacinação existe apenas para alguns casos (ex.: dengue e febre amarela), e a prevenção depende fortemente do controle vetorial e da participação comunitária.

 

A professora evidenciou que as mudanças climáticas e o fenômeno da globalização estão expandindo a área geográfica de atuação desses vetores, inclusive em regiões anteriormente não endêmicas, como é o caso de países europeus, incluindo a Espanha

Ao longo da exposição, a Dra. Calvo Torras reiterou a necessidade de adotar uma abordagem interdisciplinar e interinstitucional, no espírito do conceito One Health (Saúde Única), que articula:

  • Saúde humana
  • Saúde animal
  • Saúde ambiental

Ela defendeu que o controle de vetores não deve ser tratado de forma isolada, e sim como uma questão de justiça ambiental, equidade social e adaptação às mudanças climáticas. Para isso, é essencial a colaboração entre profissionais da saúde, pesquisadores, gestores públicos, farmacêuticos, veterinários, biólogos, engenheiros ambientais e a própria sociedade civil.

No contexto brasileiro, a palestrante destacou que a alta carga endêmica de arboviroses, como dengue, chikungunya e febre amarela, exige programas robustos de vigilância e controle vetorial, além de políticas públicas integradas e investimentos contínuos em pesquisa, tecnologia e educação sanitária.

A conferência também reforçou o papel estratégico de instituições como a Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil na promoção do conhecimento científico, na formação de lideranças técnicas e na defesa da saúde pública como valor coletivo.

Um dos destaques da conferência foi a apresentação do projeto “Mosquito Alert”, uma iniciativa criada na Catalunha e que tem mobilizado a população local no monitoramento de mosquitos vetores por meio de um aplicativo móvel gratuito.

A experiência do “Mosquito Alert” representa um exemplo inspirador de participação comunitária associada à tecnologia, capaz de fortalecer a vigilância ativa, a resposta rápida e a educação sanitária.

A Academia agradece imensamente a contribuição da Dra. Maria dels Àngels Calvo Torras e reafirma seu compromisso com a promoção de eventos científicos de excelência, que contribuam para o fortalecimento da ciência, da saúde e da cidadania no Brasil e no mundo.

O Programa Educacional da Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil possui atividades gratuitas graças aos mantenedores: EMS, Sindusfarma, Eurofarma, HyperaPharma, Abafarma, Abifina, BD, FCE Pharma, Hypofarma, ICF, Sincamesp, Stevanato Group e Wheaton Brasil.

Assista a gravação na íntegra no Canal ACFB no YouTube

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02 set 2025

Educação Interprofissional em Saúde: Estado da Arte e Avanços no Brasil

Ocorreu na noite de 1º de setembro de 2025, mais uma edição do nosso programa educacional, com o webinar “Educação Interprofissional em Saúde: Estado da Arte e Avanços no Brasil”, atividade vinculada ao eixo temático de Educação em Ciências Farmacêuticas. O encontro reuniu especialistas de renome nacional em um painel multidisciplinar que abordou os caminhos, desafios e perspectivas da formação interprofissional em saúde no país.

A mediação foi realizada pelo acadêmico Jean Carlo De Lorenzi, titular da cadeira 48 da Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil, que conduziu os debates com profundidade e clareza, promovendo ricas reflexões junto aos painelistas convidados.

O evento contou com a presença de:

Giselle Guiguer Palmisano, Coordenadora dos cursos de Saúde do Senac São Paulo e com vasta experiência em metodologias ativas e gestão de portfólios educacionais em saúde;
Juliana Masami Morimoto, Coordenadora do Curso de Nutrição da Universidade Presbiteriana Mackenzie com sólida trajetória na docência e pesquisa em saúde pública e nutrição;

Sigisfredo Brenelli, Médico, ex-coordenador do curso de medicina da UNICAMP, e atual coordenador do curso de Medicina do Mackenzie, especialista em Educação Médica e ex-presidente da Associação Brasileira de Educação Médica (ABEM);

Silvia Storpirtis, Presidente do Conselho Curador da Fundação Instituto de Pesquisas Farmacêuticas (Fipfarma), Vice-presidente da Sociedade Brasileira de Farmácia Clínica (SBFC), Acadêmica Titular da Cadeira nº 11 da Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil USP e referência nacional na formação farmacêutica e assistência farmacêutica no SUS.

Organização: Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil –  Eixo Temático de Educação em Ciências Farmacêuticas.

Data: 01 de setembro de 2025

Atividade gravada disponibilizada no Canal ACFB no YouTube a partir de 09.09.2025 https://www.youtube.com/c/ACFBAcademiadeCienciasFarmaceuticasdoBrasil/videos

O Painel foi iniciado com uma explanação sobre o conceito de Educação Interprofissional em Saúde (EIS) — definida como a prática em que estudantes e profissionais de duas ou mais áreas da saúde aprendem uns com os outros, sobre os outros e entre si, com o objetivo de promover práticas colaborativas e melhorar a qualidade do cuidado.

A Dra. Giselle Palmisano reforçou o papel da EIS na valorização da integralidade do cuidado, desenvolvimento de competências colaborativas, promoção da segurança do paciente e fortalecimento do SUS. Ressaltou ainda que a implementação desse modelo exige ruptura com os currículos fragmentados e por disciplina ainda predominantes nas instituições de ensino.

A professora Juliana Morimoto abordou a EIS sob a ótica da formação do nutricionista, enfatizando a importância de uma abordagem integral do paciente, livre de preconceitos, e contextualizada social e culturalmente. Enfatizou o papel da escuta ativa, da multiplicidade de saberes e da prática colaborativa para melhorar o cuidado e o sistema de saúde como um todo.

O professor Sigisfredo Brenelli fez uma profunda análise histórica e crítica da estrutura curricular da formação médica no Brasil. Segundo ele, os currículos ainda refletem uma herança do século XIX, fortemente influenciados pela visão positivista, hierárquica e disciplinar, o que dificulta a interdisciplinaridade.  Defendeu que é preciso ir além da coexistência entre profissionais e caminhar para uma produção conjunta de saberes e decisões terapêuticas, com espaços dialógicos horizontais.

A professora Silvia Storpirtis fez uma reflexão a partir de um olhar sistêmico, reforçando que a EIS é uma estratégia concreta para melhorar a resolutividade dos serviços de saúde, especialmente em tempos de escassez de recursos. Defendeu o protagonismo da academia na promoção de mudanças estruturais nos currículos e a articulação com os conselhos profissionais para consolidar essa proposta.

Ficou evidente que a educação interprofissional não é apenas uma tendência, mas uma necessidade ética, pedagógica e sistêmica para formar profissionais mais preparados para os desafios da saúde contemporânea.

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29 ago 2025

Mudanças na Utilização de Fitoterápicos e seus Impactos sobre os Insumos Farmacêuticos Ativos Vegetais

No dia 25 de agosto de 2025, a Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil realizou mais uma atividade do Programa Educacional, desta vez no âmbito do eixo temático Insumos Farmacêuticos. O encontro foi moderado pelo Acadêmico Dr. Hilton Oliveira, titular da Cadeira 44, e contou com a valiosa contribuição do convidado especial, Dr. Michel de Oliveira Bastos, consultor técnico e professor com ampla experiência em fitoterápicos, controle de qualidade, validação analítica e assuntos regulatórios.

O tema central da atividade foi: “Mudanças na Utilização de Fitoterápicos e seus Impactos sobre os Insumos Farmacêuticos Ativos Vegetais (IFAVs)”, com foco nas transformações trazidas pela nova regulamentação proposta pela Anvisa, especialmente a IN nº 1290/2024, que promove uma harmonização com diretrizes europeias e impacta diretamente o desenvolvimento, registro e controle de qualidade de medicamentos fitoterápicos no Brasil.

Destaques da Apresentação

O Dr. Michel apresentou de forma didática e detalhada os conceitos-chave sobre fitoterápicos, a classificação dos extratos vegetais e as implicações regulatórias e técnico-científicas das recentes atualizações normativas. Entre os principais pontos abordados, destacam-se:

Classificação dos extratos vegetais:

A nova regulamentação propõe três categorias de extratos, com impacto direto na caracterização dos insumos ativos:

  1. Extrato Padronizado – Contém substância ativa identificada e comprovadamente responsável pelo efeito terapêutico. Permite ajustes no teor por adição de excipientes ou mistura de lotes.
  2. Extrato Quantificado – Contém marcadores ativos relacionados à atividade terapêutica, mas sem comprovação de serem os únicos responsáveis. Permite ajuste apenas por mistura de lotes.
  3. Outros Extratos – Contêm marcadores analíticos sem relação comprovada com atividade terapêutica. Não permitem ajustes de teor.

Essa nova categorização impacta desde o desenvolvimento analítico até a rotulagem e bula dos produtos, passando por validações, controle de qualidade, e estratégias de registro.

Conceitos fundamentais:

  • Droga vegetal: parte da planta utilizada como matéria-prima para obtenção do extrato.
  • Derivado vegetal: o extrato obtido a partir da droga vegetal.
  • DR (Drug Ratio): relação entre a quantidade de droga vegetal utilizada e a quantidade de extrato obtido. Passa a ser um parâmetro fundamental, inclusive para rotulagem e posologia, considerando-se o extrato isento de excipientes.

Padrões de controle de qualidade:

O palestrante abordou as mudanças nos testes obrigatórios para droga vegetal, extrato e produto acabado. Destacou-se a exigência de justificativa técnica para ausência de testes como dissolução e desintegração, mesmo quando não previstos em monografias farmacopéicas, além da ênfase em boas práticas de fabricação (BPF) e validações robustas.

Impacto para a Indústria e Mercado Nacional

Durante a sessão de perguntas e comentários, o Dr. Hilton Oliveira destacou a complexidade do tema e a clareza com que o convidado o abordou. Em sua análise, ressaltou o desafio enfrentado por diversos países europeus, onde muitos produtos fitoterápicos migraram para o registro como suplementos alimentares, dada a maior agilidade regulatória. Essa tendência, segundo o Dr. Michel, é preocupante, pois pode comprometer a qualidade e segurança dos produtos, além de gerar concorrência desleal com medicamentos devidamente registrados.

No contexto brasileiro, os participantes refletiram sobre a necessidade de vigilância e diálogo com os órgãos reguladores para evitar a banalização dos fitoterápicos e assegurar a manutenção de padrões técnico-científicos rigorosos.

Considerações Finais

O evento representou uma oportunidade ímpar de atualização para profissionais e acadêmicos envolvidos com a cadeia de medicamentos fitoterápicos no país. A complexidade da nova regulamentação exige estudo aprofundado e envolvimento ativo dos profissionais farmacêuticos, sobretudo na indústria, na pesquisa e no setor regulatório.

A Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil reitera seu compromisso com a educação continuada e com a disseminação do conhecimento técnico-científico, promovendo discussões de alto nível que contribuam para o avanço do setor farmacêutico nacional.

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19 ago 2025

Pesquisadora da UFRJ Apresenta Compostos Naturais com Potencial Contra o SARS-CoV-2

Na última segunda-feira, 18 de agosto, a Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil promoveu mais uma atividade do programa educacional gratuito, no âmbito do eixo temático “Biodiversidade, Plantas Medicinais e Inovação”, coordenado pela Profa. Dra. Rachel Castilho.

A biodiversidade brasileira pode ser uma aliada poderosa na busca por novas terapias antivirais. Foi com essa premissa que a Profa. Dra. Susana Guimarães Leitão, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), conduziu a apresentação do tema “Bioprospecção de metabólitos especiais da biodiversidade brasileira com ação anti-SARS-CoV-2”.

As atividades educativas gratuitas da Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil são viabilizadas graças ao apoio de importantes mantenedores: EMS, Sindusfarma, Eurofarma, HyperaPharma, Abafarma, Abifina, BD, FCEPharma, Hypofarma, ICF, Sincamesp, Stevanato Group e Wheaton Brasil.

Com mais de 30 anos de dedicação ao ensino e à pesquisa, a professora Susana — atual vice-diretora da Faculdade de Farmácia da UFRJ — relatou sua trajetória no estudo de plantas medicinais brasileiras, com foco em suas propriedades bioativas. Desde 1996, ela coordena o Laboratório de Fitoquímica e Farmacognosia da UFRJ e desenvolve estudos principalmente em química de produtos naturais, fitoterápicos, óleos essenciais e etnofarmacologia.

Durante a apresentação, a professora Susana compartilhou resultados de décadas de pesquisa com plantas medicinais, focando no estudo do gênero Siparuna — popularmente conhecido como “limão-bravo”. A partir dessas espécies, o grupo isolou substâncias com alta atividade antiviral in vitro, como o flavonoide retusina, que demonstrou eficácia comparável à de medicamentos de referência em ensaios contra o vírus SARS-CoV-2.

Além dos estudos laboratoriais, o grupo conduziu análises computacionais (triagens in silico) e ensaios com proteínas virais recombinantes, em colaboração com pesquisadores da Fiocruz e da COPPE/UFRJ, para compreender os possíveis mecanismos de ação das substâncias, com destaque para a inibição de proteases virais críticas.

“Esses resultados reforçam o potencial dos produtos naturais no enfrentamento de infecções virais emergentes, especialmente quando considerados seus múltiplos mecanismos de ação”, destacou a professora Susana.

No entanto, ela também apontou desafios regulatórios: no Brasil, a legislação atual não permite o patenteamento de extratos vegetais ou substâncias naturais, o que impõe barreiras à proteção e à transferência tecnológica dos achados. Por isso, o foco passa a ser o desenvolvimento de formulações farmacêuticas baseadas nesses compostos bioativos.

O evento reforçou a importância de investir em ciência integrada, que una biodiversidade, inovação e saúde pública. A Academia segue promovendo o diálogo entre pesquisadores, profissionais e o setor produtivo, com o objetivo de transformar conhecimento científico em soluções para a sociedade.

 

O potencial das plantas do gênero Siparuna

A pesquisa se concentrou, inicialmente, em espécies do gênero Siparuna, popularmente conhecidas como “limão-bravo”, encontradas em diversos biomas brasileiros. Essas plantas, tradicionalmente utilizadas para tratar resfriados e febres, apresentaram compostos promissores com atividade antiviral.

Entre os principais resultados, destacou-se o isolamento da substância retusina, um flavonoide tetrametilado com potente atividade in vitro contra o SARS-CoV-2. Em ensaios celulares, a retusina mostrou eficácia comparável à da cloroquina em células Vero, com índices de seletividade significativamente elevados, indicando alta segurança celular.

Data: 18 de agosto de 2025
Tema: Bioprospecção de metabólitos especiais da biodiversidade brasileira com ação anti-SARS-CoV-2
Palestrante: Profa. Dra. Susana Guimarães Leitão
Coordenação e moderação: Profa. Dra. Rachel Castilho

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14 ago 2025

Biodiversidade como aliada da saúde: especialistas destacam potencial terapêutico ibero-americano em simpósio internacional

VII Simpósio Iberoamericano de Ciências Farmacêuticas reuniu especialistas de sete países para debater a relevância e o potencial da biodiversidade iberoamericana na saúde

São Paulo, 14 de agosto de 2025 – A riqueza biológica da Ibero-América e seu valor estratégico para a saúde humana foram o foco central do VII Simpósio Iberoamericano de Ciências Farmacêuticas – A Relevância e o Potencial da Biodiversidade Iberoamericana na Saúde, realizado em 13 de agosto de 2025. Organizado pela Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil, o evento online e gratuito reuniu pesquisadores renomados da Espanha, México, Peru, Argentina e Brasil.

Ao longo da tarde, especialistas debateram os avanços científicos no uso terapêutico de espécies vegetais nativas, os desafios da conservação ambiental e a importância do conhecimento tradicional no desenvolvimento de novos medicamentos.

Abertura e integração entre países

A sessão foi aberta pelo presidente da Academia, Dante Alario Junior, que destacou a necessidade de fortalecer a cooperação internacional na área farmacêutica com base na biodiversidade regional. “Estamos diante de um cenário em que a natureza pode nos oferecer respostas inovadoras e sustentáveis para os problemas de saúde, desde que saibamos respeitar, proteger e investigar nossas riquezas biológicas”, afirmou.

Destaques internacionais: Espanha, México, Peru e Argentina

Representando a Espanha, o biólogo Benito Valdés Castrillón apresentou uma análise sobre a biodiversidade ibérica e seu uso terapêutico, ressaltando que a Península Ibérica é uma das regiões mais diversas da Europa e oferece um vasto campo para pesquisas farmacobotânicas.

Do México, os pesquisadores Edelmira Linares Mazari e Robert Bye Boettler compartilharam estudos etnobotânicos com populações indígenas mexicanas. Edelmira destacou a importância da sabedoria tradicional: “Esses conhecimentos milenares não são apenas parte da cultura, mas também uma fonte legítima de inovação terapêutica”, afirmou. Já Robert Bye reforçou a necessidade de valorização científica das plantas medicinais utilizadas há séculos pelas comunidades.

O peruano Armando José Rivero Laverde apresentou experiências de desenvolvimento de fitofármacos no Peru e defendeu a criação de políticas de incentivo ao biocomércio sustentável, ressaltando o equilíbrio entre inovação científica, ética e conservação ambiental.

A palestra do argentino Alberto Gurni trouxe um tom de alerta ao abordar o tema “Biodiversidade em perigo”. Com sólida trajetória em farmacobotânica, Gurni destacou os riscos que a biodiversidade enfrenta diante da degradação ambiental. “Perder uma planta é perder uma possibilidade terapêutica, muitas vezes antes mesmo de conhecê-la”, disse.

Brasil: biomas como fonte de inovação científica

O encerramento do simpósio contou com apresentações dos brasileiros Hilton Oliveira dos Santos Filho e José Angelo Zuanazzi, que exploraram o vasto potencial dos biomas brasileiros – como Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica – para o desenvolvimento de medicamentos inovadores. Eles também apresentaram o Prêmio Pio Corrêa de Inovação em Ciências Farmacêuticas com a Biodiversidade Brasileira, iniciativa que reconhece pesquisas nacionais que aliem inovação, sustentabilidade e valorização da biodiversidade.

Reflexão e engajamento

O simpósio foi encerrado com uma sessão interativa de perguntas e respostas, que demonstrou o envolvimento de um público formado por estudantes, cientistas, profissionais da saúde e representantes da indústria farmacêutica.

A Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil, organizadora do evento, reafirmou seu compromisso com o incentivo à ciência de excelência, à valorização do conhecimento tradicional e à proteção do patrimônio biológico ibero-americano.

Organização: Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil
Comissão Organizadora: Acadêmicos Lauro D. Moretto, Ivan Torres Marquina e Leonardo de Souza Teixeira
Apoio: EMS, Sindusfarma, Eurofarma, HyperaPharma, Abafarma, Abifina, BD, FCEPharma, Hypofarma, ICF, Sincamesp, Stevanato Group e Wheaton Brasil.

Assista a gravação na íntegra no Canal ACFB no YouTube

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12 ago 2025

A conferência de Dr. Cecilio Venegas ofereceu aos participantes uma rara oportunidade de compreender a profunda conexão entre a farmácia e as grandes transformações da história moderna desde as navegações até o surgimento das farmacopeias organizadas.

“Brasil e a Primeira Farmácia que Deu a Volta ao Mundo”
Eixo Temático: Educação em Ciências Farmacêuticas
Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil – 11 de agosto de 2025

No dia 11 de agosto de 2025, o Eixo Temático Educação em Ciências Farmacêuticas promoveu, como parte do Programa Educacional da Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil, a conferência internacional intitulada “Brasil e a Primeira Farmácia que Deu a Volta ao Mundo”. O evento foi realizado virtualmente, pela plataforma Zoom, e foi ministrado em espanhol pelo conferencista convidado Dr. Cecilio José Venegas Fito.

A atividade teve moderação do Acadêmico Pedro de Oliveira, titular da Cadeira nº 106 e curador do Espaço Memória das Ciências Farmacêuticas no Brasil. O Eixo Temático é coordenado pela Acadêmica Silvia Storpirtis, titular da Cadeira nº 11.

Com rigor histórico e profundidade científica, o Dr. Cecilio Venegas — PhD em Farmácia pela Universidade de Sevilha, presidente do Colégio Oficial de Farmacêuticos de Badajoz, membro do Plenário do Conselho Geral dos Colégios de Farmacêuticos da Espanha, e Correspondente Estrangeiro da Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil — conduziu uma verdadeira aula sobre a farmácia embarcada nas grandes expedições marítimas do século XVI.

Entre os pontos abordados, destacam-se:

  • A Farmácia na Expedição de Magalhães e Elcano (1519-1522): Pela primeira vez, uma farmácia navegou ao redor do planeta, a bordo da expedição hispano-portuguesa que completou a primeira circum-navegação do globo. O responsável pelo arsenal terapêutico da frota foi o boticário Juan Bernal, de Sevilha, que preparou os medicamentos que compuseram a botica da viagem.
  • Brasil como Rota Estratégica: A expedição tocou o território brasileiro em 29 de novembro de 1519, na Baía de Santa Lúcia (atual Baía de Guanabara), revelando o papel do Brasil como ponto de escala e de contato entre o Novo Mundo e as rotas marítimas europeias.

  • A precariedade sanitária nas caravelas: O conferencista descreveu as condições sanitárias adversas a bordo: alimentação pobre (biscoitos bolorentos, carne salgada), água de péssima qualidade e a ocorrência de inúmeras doenças — como escorbuto, sífilis, peste marítima, varíola, tifo, tuberculose, entre outras. Os remédios disponíveis eram básicos e muitas vezes ineficazes.

 

  • Medicamentos e insumos da época: A farmácia da expedição incluía preparações como unguentos, azeites medicinais, simples de origem vegetal e mineral, como alúmen, cânfora, gengibre, pimenta-do-reino, açafrão, cânfora e o mítico “triaca magna”, mistura polivalente com até 60 ingredientes, incluindo carne de víbora.

  • A dualidade da farmácia renascentista: Foi ressaltada a ambiguidade entre o papel científico e comercial do boticário na época. A botica era, ao mesmo tempo, um centro de saber empírico e um negócio vinculado ao comércio marítimo.
  • A esperança nas drogas do Novo Mundo: Com o avanço das navegações, plantas medicinais americanas como quina, coca, jaborandi, curare, catuaba, cacau e outras começaram a circular na Europa, transformando a farmácia e alimentando o desenvolvimento de um saber farmacêutico mais eficaz e diversificado.

 

A conferência de Dr. Cecilio Venegas ofereceu aos participantes uma rara oportunidade de compreender a profunda conexão entre a farmácia e as grandes transformações da história moderna desde as navegações até o surgimento das farmacopeias organizadas. Ao reconstituir com riqueza de detalhes o contexto sanitário das grandes viagens marítimas e o papel dos boticários, o evento reforçou a relevância da memória científica como elemento essencial para a formação de uma consciência crítica sobre as ciências farmacêuticas.

Essa atividade não apenas iluminou um capítulo pouco conhecido da história da farmácia, como também reafirmou o compromisso da Academia com a educação continuada, a internacionalização do conhecimento e a valorização do patrimônio histórico-científico.

As ações do Programa Educacional da Academia são gratuitas e contam com o apoio dos mantenedores: EMS, Sindusfarma, Eurofarma, HyperaPharma, Abafarma, Abifina, BD, FCE Pharma, Hypofarma, ICF, Sincamesp, Stevanato Group e Wheaton Brasil.

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05 ago 2025

HPV e câncer cervical são tema de conferência com foco em prevenção e diagnóstico precoce.

No dia 04 de agosto de 2025, o Eixo Temático de Análises Clínicas e Toxicológicas promoveu a conferência virtual “Aspectos epidemiológicos, prognósticos e diagnósticos do câncer cervical: importância do HPV nesse contexto”, ministrada pela Profa. Nayara Nascimento Toledo Silva.

A atividade reuniu 261 participantes, um indicativo do crescente interesse em temas relacionados à saúde pública e à prevenção de doenças.

O objetivo da conferência foi destacar o papel do HPV (Papilomavírus Humano) no desenvolvimento do câncer cervical e reforçar a importância da prevenção, rastreamento e diagnóstico precoce dessa neoplasia. Segundo a conferencista, o câncer de colo do útero é o terceiro mais comum entre as mulheres no Brasil, com mais de 17 mil casos estimados somente em 2023.

A apresentação traçou um panorama histórico e científico da descoberta da associação entre o HPV e o câncer cervical, desde os primeiros relatos de verrugas humanas no início do século XX até a identificação, nas décadas de 1980 e 1990, dos tipos de HPV de alto risco (principalmente os tipos 16 e 18) como cofatores para o surgimento de lesões neoplásicas.

A Profa. Nayara explicou a estrutura do HPV, um vírus de DNA circular com cerca de 8 mil pares de base, e como sua infecção se dá principalmente na junção escamocolunar do colo do útero. Existem mais de 200 tipos de HPV, dos quais cerca de 40 infectam a região anogenital. A classificação dos tipos virais se baseia no risco oncogênico: os tipos 16 e 18 são os mais prevalentes entre os de alto risco, enquanto os tipos 6 e 11 são comuns em verrugas genitais, sem associação com câncer.

 

No Brasil, a prevalência da infecção por HPV gira em torno de 25% da população. Felizmente, estratégias eficazes de prevenção já estão disponíveis.

A conferência enfatizou a importância da vacinação como forma de prevenção primária. A vacina quadrivalente, disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), protege contra os tipos de HPV associados a cerca de 70,7% dos casos de câncer cervical. Já a vacina nonavalente, disponível na rede privada, amplia essa cobertura para 87,4%. A vacinação no SUS é oferecida a meninas e meninos de 9 a 14 anos, com maior eficácia quando administrada antes do início da vida sexual — mas pessoas sexualmente ativas também podem e devem ser vacinadas.

Já em relação ao rastreamento, o Ministério da Saúde recomenda a realização periódica do exame de Papanicolau em mulheres de 25 a 64 anos. No entanto, a Organização Mundial da Saúde vem incentivando o uso do teste de HPV como método primário de rastreamento, por sua maior sensibilidade e precisão diagnóstica, reduzindo casos de falso negativo. Esses testes detectam o DNA viral, geralmente por técnicas como a PCR (reação em cadeia da polimerase).

 

A conferência foi promovida como parte do Programa Educacional da Academia de Ciências do Brasil, que oferece atividades gratuitas graças ao apoio dos seus mantenedores: EMS, Sindusfarma, Eurofarma, HyperaPharma, Abafarma, Abifina, BD, FCEPharma, Hypofarma, ICF, Sincamesp, Stevanato Group e Wheaton Brasil.

Gravação disponível no Canal ACFB no YouTube.

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