A Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil iniciou, no dia 30 de março de 2026, as atividades do eixo temático Pesquisa Farmacêutica, Toxicológica e Clínica, parte integrante de seu programa educacional. A abertura foi conduzida pelo Acadêmico Leonardo Teixeira, coordenador do eixo e moderador da sessão, que destacou o compromisso da instituição com a difusão do conhecimento científico de forma acessível, por meio de iniciativas gratuitas viabilizadas por seus mantenedores.
A palestra intitulada “Biocomplexo e fotobiomodulação: novas fronteiras na medicina regenerativa”, reuniu dois especialistas com atuação na área: o médico ortopedista Dr. Carlos Henrique Bertone Reis e a pesquisadora Dra. Daniela Vieira Buchaim. O encontro apresentou resultados de um estudo pré-clínico inovador, que recebeu com menção honrosa no III Prêmio Pio Corrêa de Inovação em Ciências Farmacêuticas com a Biodiversidade Brasileira, na categoria Master.

Em sua exposição, o Dr. Carlos Henrique Reis contextualizou os desafios da regeneração óssea, especialmente em defeitos críticos — lesões de grande extensão que não apresentam regeneração espontânea completa. Embora o tecido ósseo possua elevada capacidade regenerativa, esses casos exigem o uso de substitutos ósseos e estratégias terapêuticas que favoreçam a neoformação tecidual.



Nesse cenário, o estudo teve como objetivo avaliar o efeito da fotobiomodulação, por meio da laserterapia de baixa potência, no processo de reparo de defeitos ósseos preenchidos com um biomaterial cerâmico bifásico — composto por hidroxiapatita e fosfato tricálcico — associado a um biopolímero de fibrina heterólogo. Esse biopolímero, desenvolvido pelo Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos (CEVAP/Unesp), atua como um scaffold, ou seja, um arcabouço tridimensional que favorece a adesão celular e a organização do tecido em regeneração.

O delineamento experimental envolveu 56 ratos divididos em quatro grupos: biomaterial isolado; biomaterial associado ao biopolímero; biomaterial associado à fotobiomodulação; e a combinação dos três elementos — denominada pelos autores como biocomplexo associado à fotobiomodulação. Os defeitos ósseos foram induzidos em calvária, com avaliações realizadas após 14 e 42 dias.
Dando continuidade, a Dra. Daniela Vieira Buchaim aprofundou o conceito de biocomplexo, termo introduzido pelo grupo de pesquisa em 2020, que descreve a associação funcional entre biomaterial e biopolímero de fibrina. Segundo a pesquisadora, essa combinação forma uma estrutura gelatinosa capaz de estabilizar o material no leito cirúrgico, promover a aglutinação das partículas e facilitar a invasão celular, desempenhando papel fundamental na regeneração tecidual. Além disso, destacou o potencial desse sistema como estratégia de drug delivery, ampliando suas aplicações na bioengenharia.

A caracterização do biomaterial evidenciou propriedades relevantes para a regeneração, como alta porosidade e estrutura compatível com a osteocondução, permitindo a migração celular e a formação de novo tecido ósseo. Associado ao biopolímero e à fotobiomodulação, esse sistema demonstrou potencial sinérgico.
A terapia por fotobiomodulação, realizada com laser de baixa potência, foi aplicada em protocolo específico desenvolvido pelo grupo, com parâmetros controlados de comprimento de onda, potência e densidade de energia. Entre seus efeitos biológicos, destacam-se o aumento da produção de ATP, estímulo à proliferação e diferenciação celular, promoção da angiogênese, modulação inflamatória e aceleração da síntese e organização de fibras colágenas.
Os resultados obtidos por meio de microtomografia computadorizada revelaram maior formação óssea nos grupos submetidos à terapia combinada, com evidência de trabéculas ósseas mais organizadas e maior maturidade tecidual ao longo do tempo. As análises histológicas confirmaram esses achados, demonstrando evolução do tecido ósseo imaturo para um padrão mais lamelar e mineralizado, especialmente no grupo tratado com o biocomplexo associado à fotobiomodulação.

A análise de birrefringência com coloração por picrosirius red evidenciou a transição de fibras colágenas tipo III (imaturas) para tipo I (maduras), indicando progressão adequada do processo regenerativo. Já a análise histomorfométrica demonstrou diferenças estatisticamente significativas entre os grupos, com maior percentual de formação de novo osso e menor presença de tecido não mineralizado na terapia combinada.
Os resultados também evidenciaram que a regeneração ocorreu de forma centrípeta, partindo das bordas para o centro do defeito, padrão esperado em processos fisiológicos de reparo ósseo, porém intensificado pela abordagem terapêutica adotada.
Outro aspecto relevante discutido foi o papel do biopolímero de fibrina, que se mostrou mais do que um agente adesivo, atuando como um biofármaco capaz de criar um microambiente favorável à regeneração. Estudos prévios do grupo já indicam sua eficácia também em reparo de lesões nervosas periféricas, ampliando seu potencial de aplicação clínica.
Os palestrantes destacaram ainda a importância das parcerias institucionais no desenvolvimento da pesquisa, envolvendo universidades como USP e Unesp, além da colaboração com centros especializados e indústria, evidenciando o caráter interdisciplinar e translacional do estudo.
Como conclusão, o trabalho demonstrou que a associação entre biomaterial cerâmico, biopolímero de fibrina e fotobiomodulação promove efeitos positivos e sinérgicos na regeneração óssea, consolidando o conceito de biocomplexo como uma estratégia promissora na medicina regenerativa.

Por fim, foi ressaltado o desafio de transpor os resultados da pesquisa experimental para a prática clínica — o chamado “vale da morte” da inovação —, reforçando a importância da medicina translacional. Com o avanço dos estudos regulatórios do biopolímero de fibrina, atualmente em fases avançadas de avaliação, abre-se perspectiva concreta para sua aplicação em terapias humanas no futuro próximo.
Participe das próximas atividades
O programa educacional da Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil oferece atividades gratuitas ao longo do ano. Os interessados podem acompanhar a agenda de eventos e participar das próximas discussões promovidas pela instituição.
Além disso, todas as edições dos webinars e eventos já realizados estão disponíveis para acesso no Canal ACFB da Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil no YouTube, permitindo rever conteúdos e acompar os debates promovidos pela Academia.
As atividades educacionais da ACFB são viabilizadas graças ao apoio institucional de seus mantenedores: EMS, Sindusfarma, Eurofarma, HyperaPharma, Abafarma, Abifina, BD, FCE Pharma, Hypofarma, ICF, Sincamesp, Stevanato Group e Wheaton Brasil.…









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