05 maio 2026

Perimenopausa: entre a clínica, o laboratório e a fitoterapia — uma abordagem integrada e baseada em evidências

No dia 4 de maio de 2026, a Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil promoveu, no âmbito do Eixo Temático de Análises Clínicas e Toxicológicas, o webinar “Período Perimenopausal: Necessidade de Reposição Hormonal? Avaliação multiprofissional e a importância do laboratório na dosagem hormonal”. Moderado pelo acadêmico Marcos Machado Ferreira, titular da Cadeira nº 104, com sólida trajetória nas áreas de análises clínicas e gestão em saúde, o encontro reuniu especialistas para discutir, sob diferentes perspectivas, os desafios e avanços no cuidado à mulher durante a transição menopausal.

Participaram como palestrantes a ginecologista e obstetra Ana Paula Beck, integrante do Departamento Materno-Infantil do Hospital Israelita Albert Einstein, coordenadora da pós-graduação em Ginecologia e Obstetrícia da instituição e diretora clínica, com formação pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), e a farmacêutica Nilsa Sumie Yamashita Wadt, doutora em Fármacos e Medicamentos pela Universidade de São Paulo (USP), professora e pesquisadora com ampla experiência em farmacognosia, fitoquímica, toxicologia de plantas medicinais e fitoterapia clínica, além de atuação destacada no ensino, na pesquisa e no Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo.

Perimenopausa: uma transição subdiagnosticada

A ginecologista Ana Paula Beck destacou que a perimenopausa — atualmente compreendida como transição hormonal — corresponde ao período que antecede a menopausa em cerca de 5 a 7 anos, podendo se estender até um ano após a última menstruação. Trata-se de uma fase marcada por intensas oscilações hormonais, frequentemente acompanhadas por sintomas inespecíficos e, por isso, muitas vezes negligenciados.

Entre os primeiros sinais clínicos, destacam-se alterações no ciclo menstrual, inicialmente com encurtamento dos intervalos e, posteriormente, com alongamento progressivo até a cessação. Sintomas como insônia, irritabilidade, fadiga, alterações de humor, redução da libido e queixas cognitivas — como o chamado brain fog — compõem um quadro amplo e heterogêneo, com mais de uma centena de manifestações possíveis.

Um aspecto relevante enfatizado durante o debate foi o relato frequente das pacientes de “não se reconhecerem”, evidenciando o impacto biopsicossocial dessa fase. Tal diversidade sintomatológica contribui para o subdiagnóstico, especialmente nas fases iniciais, quando exames laboratoriais ainda podem não apresentar alterações significativas.

Terapia de Reposição Hormonal: indicações e individualização

A discussão sobre a terapia de reposição hormonal (TRH) reforçou a necessidade de uma abordagem individualizada. Segundo a especialista, a indicação é essencialmente clínica, baseada na intensidade dos sintomas e no impacto na qualidade de vida, desde que não haja contraindicações.

Foi ressaltado que, após revisões críticas de estudos do início dos anos 2000 — que associaram de forma generalizada a TRH ao aumento do risco de câncer — houve uma reavaliação das evidências, permitindo hoje uma utilização mais segura e ampliada da terapia em pacientes selecionadas.

Os objetivos da TRH incluem:

  • Curto prazo: alívio de sintomas vasomotores e melhora da qualidade de vida;
  • Longo prazo: preservação da massa óssea e muscular.

Por outro lado, a TRH não deve ser indicada com finalidades ainda não comprovadas, como prevenção de declínio cognitivo. A escolha da via de administração (transdérmica, oral, entre outras) e da posologia também deve ser personalizada, considerando as características clínicas de cada paciente.

Um ponto crítico abordado foi a disseminação de desinformação, especialmente em relação ao uso de testosterona, que não constitui terapia de rotina, sendo reservada a casos específicos.

Fitoterapia: potencial terapêutico e desafios de segurança

A contribuição da farmacêutica e pesquisadora Nilsa Sumie Yamashita Wadt trouxe uma abordagem integrativa, com destaque para o uso racional de fitoterápicos na perimenopausa.

As isoflavonas de soja (Glycine max) foram apresentadas como uma das principais alternativas, atuando como moduladores seletivos de receptores hormonais. Compostos como genisteína e daidzeína mimetizam parcialmente a ação estrogênica, contribuindo para a redução de sintomas como fogachos.

Entretanto, sua eficácia depende de fatores como a integridade da microbiota intestinal, responsável pela ativação dessas substâncias — o que justifica a recomendação do uso associado de probióticos.

Outras espécies, como Trifolium pratense (trevo vermelho), também foram discutidas como fontes de isoflavonas. Em contrapartida, o uso indiscriminado de plantas como Morus nigra (amora) foi criticamente avaliado, devido ao potencial de seus compostos com núcleo esteroidal serem metabolizados em hormônios ou até mesmo em cortisol, podendo gerar efeitos adversos como retenção hídrica e alterações pressóricas.

Um alerta importante foi direcionado à crença de que “produto natural não faz mal”. Questões como identificação botânica incorreta, contaminação por metais pesados e alta taxa de falsificação de drogas vegetais (estimada entre 60% e 70%) reforçam a necessidade de controle de qualidade rigoroso e uso de extratos padronizados.

O papel estratégico do laboratório clínico

O laboratório clínico assume papel fundamental tanto na investigação quanto no acompanhamento da perimenopausa. Conforme apresentado pelo moderador Marcos Machado Ferreira, a interpretação adequada dos marcadores hormonais exige compreensão da fisiologia do ciclo menstrual e do contexto clínico.

Durante a transição menopausal, os níveis hormonais — especialmente o FSH — podem apresentar grande variabilidade, dificultando a interpretação isolada dos exames. Por isso, informações como data da última menstruação, regularidade do ciclo e uso de medicamentos são essenciais para a acurácia diagnóstica.

Além dos hormônios sexuais, destacou-se a importância de avaliações complementares no período pós-menopausa, incluindo:

  • metabolismo ósseo (cálcio e vitamina D);
  • perfil metabólico e lipídico;
  • marcadores relacionados ao risco cardiovascular e resistência à insulina.

Esses parâmetros ampliam o cuidado para além da dimensão hormonal, contemplando a saúde global da mulher.

Integração multiprofissional: o caminho para o cuidado de excelência

O webinar evidenciou que o manejo da perimenopausa exige uma abordagem integrada. A associação entre avaliação clínica criteriosa, suporte laboratorial qualificado e uso racional de terapias — convencionais ou integrativas — permite maior segurança e efetividade no cuidado.

Mais do que uma fase de transição, a perimenopausa representa uma oportunidade para reavaliar a saúde da mulher de forma ampla, promovendo intervenções personalizadas e baseadas em evidências.

 

Participe das próximas atividades

O programa educacional da Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil oferece atividades gratuitas ao longo do ano. Os interessados podem acompanhar a agenda de eventos e participar das próximas discussões promovidas pela instituição.

Além disso, todas as edições dos webinars e eventos já realizados estão disponíveis para acesso no Canal ACFB da Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil no YouTube, permitindo rever conteúdos e acompar os debates promovidos pela Academia.

As atividades educacionais da ACFB são viabilizadas graças ao apoio institucional de seus mantenedores: EMS, Sindusfarma, Eurofarma, HyperaPharma, Abafarma, Abifina, BD, FCE Pharma, Hypofarma, ICF, Sincamesp, Stevanato Group e Wheaton Brasil.