11 maio 2026

A integração entre biodiversidade brasileira e inovação farmacêutica foi o eixo central da palestra “Uso do Extrato Seco de Lippia alba, Formulações Fitoterápicas e Processo”

O webinar “Uso do Extrato Seco de Lippia alba, Formulações Fitoterápicas e Processo” realizado em 11 de maio de 2026 pelo eixo temático Biodiversidade, Plantas Medicinais e Inovação do Programa Educacional da Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil.

A atividade foi aberta pela Acadêmica Rachel Castilho, coordenadora do eixo temático, e moderada por Layla Meireles Camargos, farmacêutica, Mestra em Ciências Farmacêuticas e especialista em Farmácia Clínica e Oncológica.

A palestra foi ministrada pela pesquisadora Paula Mendonça Leite, farmacêutica com formação em mestrado, doutorado e pós-doutorado em Ciências Farmacêuticas pela UFMG, além de atuação consolidada em produtos naturais, fitoterapia, inovação farmacêutica e desenvolvimento tecnológico de fitoterápicos.

O trabalho apresentado recebeu Menção Honrosa no III Prêmio Pio Corrêa – Categoria Acadêmico e sintetiza mais de uma década de investigação científica voltada ao potencial farmacológico de Lippia alba, espécie amplamente utilizada na medicina tradicional brasileira.

Durante a exposição, a palestrante apresentou a trajetória científica do projeto desde sua origem, associada a observações clínicas realizadas no ambulatório de anticoagulação da Universidade Federal de Minas Gerais. Pacientes em uso de varfarina relataram consumo concomitante de plantas medicinais, especialmente na forma de infusões, sem monitoramento especializado acerca de possíveis interações farmacodinâmicas e farmacocinéticas.

A partir dessa demanda clínica, o grupo estruturou uma linha de pesquisa translacional voltada à investigação dos efeitos de espécies vegetais sobre a hemostasia. Estudos epidemiológicos subsequentes demonstraram elevada prevalência do uso de plantas medicinais entre pacientes anticoagulados, alcançando aproximadamente 70% da população analisada, evidenciando a relevância sanitária do tema e a necessidade de validação científica dessas práticas populares.

No contexto dos estudos de triagem farmacológica, 18 espécies vegetais brasileiras foram avaliadas quanto à atividade anticoagulante e antiplaquetária in vitro. Entre elas, Lippia alba destacou-se por apresentar atividade biológica expressiva sobre diferentes etapas da cascata de coagulação, além de efeitos relevantes em modelos de agregação plaquetária e geração de trombina.

Segundo a pesquisadora, a complexidade farmacológica observada revelou um aspecto central do fitocomplexo vegetal: a atuação multitarget. Diferentemente dos anticoagulantes sintéticos seletivos, o extrato de Lippia alba demonstrou modular simultaneamente múltiplas vias bioquímicas relacionadas à inflamação, estresse oxidativo, ativação plaquetária e coagulação sanguínea.

Esse achado levou à reformulação estratégica da proposta terapêutica inicial. Em vez do desenvolvimento de um anticoagulante clássico, o grupo passou a investigar o potencial da espécie como agente adjuvante na prevenção e no manejo da síndrome metabólica e das doenças cardiovasculares, condições multifatoriais nas quais abordagens farmacológicas pleiotrópicas podem representar vantagem terapêutica.

A caracterização fitoquímica revelou predominância de compostos fenólicos bioativos, incluindo flavonoides, fenilpropanoides e iridoides, com destaque para verbascosídeos e derivados relacionados ao quimiotipo citral. Os estudos cromatográficos por LC-MS e HPLC permitiram correlacionar variabilidade química, sazonalidade, ploidia e origem botânica com diferenças significativas na atividade farmacológica dos extratos.

A palestra também enfatizou os desafios inerentes à padronização de fitoterápicos derivados de espécies com elevada variabilidade metabólica. Estudos envolvendo acessos diploides, triploides e tetraploides demonstraram impacto direto da constituição genética vegetal sobre o perfil metabolômico e, consequentemente, sobre a atividade biológica do extrato.

No âmbito tecnológico, foi descrito o desenvolvimento de um fitoterápico padronizado obtido a partir do extrato aquoso seco de Lippia alba, produzido conforme diretrizes do Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira. O processo incluiu padronização granulométrica da droga vegetal, obtenção do extrato por infusão, secagem por spray dryer, encapsulamento e validação analítica de metodologia para determinação de fenólicos totais, adaptada para aplicação em Farmácias Vivas e contextos de produção pública.

A etapa clínica representou um marco importante do projeto. Em ensaio clínico fase I, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, 40 voluntários saudáveis receberam cápsulas contendo o extrato seco padronizado durante quatro semanas. Foram avaliados parâmetros bioquímicos, hematológicos, antropométricos, cardiovasculares e comportamentais.

Os resultados evidenciaram redução significativa de colesterol não-HDL e massa gorda corporal, além de alterações compatíveis com melhora de parâmetros metabólicos e cardiovasculares. Conforme destacado pela palestrante, a relevância desses achados torna-se ainda maior considerando que os participantes eram indivíduos saudáveis, situação em que alterações fisiológicas expressivas tendem a ser menos pronunciadas.

O projeto resultou em pedido de patente referente ao extrato seco, formulações fitoterápicas e processo de obtenção, consolidando o avanço do desenvolvimento tecnológico em níveis mais elevados de maturidade científica e regulatória.

Atualmente, os esforços do grupo concentram-se na ampliação da escala produtiva, desenvolvimento de métodos analíticos por HPLC para controle de qualidade, estudos de estabilidade, ensaios toxicológicos e futura condução de estudos clínicos fase II voltados à validação terapêutica em pacientes com síndrome metabólica.

Ao final da atividade, Paula Mendonça Leite ressaltou o caráter interdisciplinar e colaborativo da pesquisa, construída ao longo de anos por meio da integração entre farmacognosia, fitoquímica, tecnologia farmacêutica, hematologia, farmacologia e inovação em produtos naturais.

Participe das próximas atividades

O programa educacional da Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil oferece atividades gratuitas ao longo do ano. Os interessados podem acompanhar a agenda de eventos e participar das próximas discussões promovidas pela instituição.

Além disso, todas as edições dos webinars e eventos já realizados estão disponíveis para acesso no Canal ACFB da Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil no YouTube, permitindo rever conteúdos e acompar os debates promovidos pela Academia.

As atividades educacionais da ACFB são viabilizadas graças ao apoio institucional de seus mantenedores: EMS, Sindusfarma, Eurofarma, HyperaPharma, Abafarma, Abifina, BD, FCE Pharma, Hypofarma, ICF, Sincamesp, Stevanato Group e Wheaton Brasil.