16 set 2025

Programa Farmácias Vivas, Professor Francisco José de Abreu Matos

São Paulo, 15 de setembro de 2025 — A Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil (ACFB) realizou um webinar do eixo temático Biodiversidade, Plantas Medicinais e Inovação. A atividade, moderada pela acadêmica titular Raquel Castilho (cadeira nº 42), contou com a participação da Dra. Mary Anne Medeiros Bandeira, que ministrou a palestra “Programa Farmácias Vivas, Professor Francisco José de Abreu Matos”.

A Dra. Mary Anne, professora das disciplinas de farmacognosia e fitoterapia da Universidade Federal do Ceará (UFC), e atual diretora do Horto de Plantas Medicinais Francisco José de Abreu Matos, apresentou a história e o legado do programa Farmácias Vivas. O programa, criado em 1983 pelo Professor Francisco José de Abreu Matos, seu orientador, nasceu com o objetivo de transferir o conhecimento científico sobre plantas medicinais para a comunidade, de forma acessível e segura.

A palestra destacou a visão inovadora do Professor Matos, que, após uma carreira dedicada à ciência, sentiu a necessidade de “devolver para a comunidade o que [ele] aprendeu”. O programa se concretiza em unidades farmacêuticas onde os usuários têm acesso a medicamentos fitoterápicos de comprovada atividade terapêutica, preparados a partir de plantas cultivadas em hortas próprias.

Um dos pontos mais ressaltados foi a importância da etnofarmacologia — a ponte entre a medicina popular e a ciência. A palestrante enfatizou a necessidade de valorizar a sabedoria popular, resultado de mais de 40 anos de pesquisas de campo realizadas pelo Professor Matos no Nordeste brasileiro. Esses estudos, catalogados em um vasto acervo científico digitalizado, revelaram informações valiosas sobre o uso de plantas regionais e a importância da regionalização na fitoterapia. A Dra. Mary Anne ilustrou isso com exemplos como o uso de eucalipto nordestino (Eucalyptus tereticornium) ou a substituição da espinheira-santa pela aroeira-do-sertão (Myracrodruon urundeuva) em farmácias vivas do Ceará, reforçando a necessidade de políticas públicas que considerem as especificidades de cada bioma.

A apresentação também sublinhou o aspecto educativo e social do programa, que não apenas ensina a comunidade sobre o uso correto das plantas, mas também resgata a cultura e a autoestima dos participantes, utilizando métodos lúdicos como a poesia para fixar o conhecimento científico. A Dra. Mary Anne destacou a contribuição do programa para a conservação da biodiversidade, afirmando que a distribuição de mudas de espécies úteis perpetua sua existência e fomenta a consciência ambiental. O projeto pedagógico Hortos nas Escolas, por exemplo, capacita alunos do ensino fundamental e médio, perpetuando o conhecimento e valorizando o saber tradicional.

Ainda, foi evidenciado o papel fundamental do farmacêutico no processo e o impacto socioeconômico do programa, que em municípios cearenses, por exemplo, resultou em uma contenção de despesas com medicamentos de até 200%. O Horto Matriz da UFC, além de ser um centro de pesquisa, ensino e extensão, fornece mudas certificadas e treinamento, garantindo a qualidade e segurança dos fitoterápicos. Os modelos de Farmácia Viva (1, 2 e 3) demonstram a sua adaptabilidade a diferentes realidades, com o modelo 3, que envolve a produção de fitoterápicos com controle de qualidade, sendo reconhecido pela ANVISA.

Em sua fala final, a palestrante fez um apelo para que a comunidade científica se una na criação de uma medicina tradicional brasileira, que valorize o nosso tesouro de biodiversidade. A trajetória do programa Farmácias Vivas, com o reconhecimento pelo Ministério da Saúde em 2010 e a resolução da ANVISA em 2013, mostra que, apesar das dificuldades, a iniciativa é uma resposta concreta e de sucesso às políticas nacionais de plantas medicinais. A aprovação de um projeto de lei federal, já em discussão, é vista como um passo crucial para garantir verbas e a continuidade política do programa.

A palestra da Dra. Mary Anne não apenas celebrou o legado humanista do Professor Matos, mas também serviu como um lembrete da importância de uma abordagem holística e contextualizada no estudo das plantas medicinais, conectando a ciência à realidade social das comunidades e clamando por políticas públicas que apoiem e valorizem a medicina popular brasileira.