07 out 2025

Doença de Alzheimer: fatores de risco e diagnóstico laboratorial

São Paulo, 6 de outubro de 2025 — A Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil deu início ao eixo Análises Clínicas e Toxicológicas do seu Programa Educacional com a palestra “Doença de Alzheimer: fatores de risco e diagnóstico laboratorial”, apresentada pela Professora Dra. Karina Braga Gomes, da UFMG. A sessão foi moderada pela Acadêmica Maria das Graças Carvalho, Titular da Cadeira nº 78, que fez a abertura contextualizando a relevância do tema, seguido de um perfil acadêmico detalhado da palestrante.

O que é Alzheimer, seus principais tipos e epidemiologia

Dra. Karina iniciou explicando que demência é um termo guarda-chuva que engloba várias síndromes de declínio cognitivo progressivo, com perda de memória, linguagem, funções executivas, habilidades visioespaciais e funcionalidade cotidiana. Entre elas: Doença de Alzheimer (50‑75% dos casos), demência vascular (20‑30%), demência frontotemporal e demência por corpos de Lewy, cada qual com características clínicas distintas. A demência por corpos de Lewy, por exemplo, se destaca por alucinações visuais, flutuações cognitivas e pelo depósito de alfa‑sinucleína no cérebro, visível em exame anatomopatológico.

Na epidemiologia, foram apresentados dados dos Estados Unidos pela Alzheimer’s Association: 7,2 milhões de pessoas com Alzheimer, com distribuição por idade mostrando que a maior parcela dos casos está nos grupos mais idosos: 65‑74 anos (~26%), 75‑84 (~39%), e acima de 85 anos (~35%). Também foi destacado: mulheres têm risco mais alto — influenciado por fatores biológicos, hormonais, maior expectativa de vida, mas também por desigualdades históricas de acesso à educação. No Brasil, estudos populacionais indicam prevalência de demência (não só Alzheimer) entre 8‑9% acima de 60 anos, com projeções de crescimento significativo até 2050.

Fatores de risco ao longo da vida e prevenção

A Dra. Karina ressaltou que controlar fatores de risco desde a infância até a maturidade pode reduzir em até 45% dos casos globais de demência. No Brasil, com características populacionais específicas, esse percentual pode ser ainda maior — quase 60% — ao controlar os mesmos fatores.

  • Infância: educação de qualidade e escolaridade adequada são pilares para construção da reserva cognitiva. Baixa escolaridade (≤ 8 anos) aparece como fator de risco considerável.
  • Meia‑idade e maturidade: obesidade, hipertensão, diabetes, tabagismo, inatividade física, consumo excessivo de álcool, traumatismos cranianos, colesterol elevado (LDL), perda de visão e audição, isolamento social, poluição ambiental, depressão, entre outros.

Diversos estudos internacionais e nacionais, inclusive o ELSI‑Brasil, apoiam que intervenções sobre estilo de vida (atividade física, dieta, socialização, controle de doenças cardiovasculares) são eficazes em retardar ou reduzir risco de Alzheimer ou demência.

Mecanismos fisiopatológicos

A Dra. Karina explicou os mecanismos pelos quais esses fatores de risco contribuem para o aparecimento da doença de Alzheimer:

  • Lesões vasculares: hipertensão, colesterol alto, obesidade e diabetes favorecem dano vascular, comprometimento do fluxo cerebral e infartos silenciosos.
  • Acúmulo de beta‑amiloide (Aβ) e hiperfosforilação da proteína Tau, levando à formação de placas e emaranhados neurofibrilares, perda sináptica e morte neuronal.
  • Inflamação e ativação de astrócitos e micróglia, que amplificam o dano neural.
  • Redução da reserva cognitiva por falta de estimulação intelectual, isolamento social ou estímulos ambientais reduzidos.

Ferramentas e intervenções de estilo de vida

Foram citados estudos como FINGERS — Finlândia, U‑Yes Point e a iniciativa latino‑americana Latam FINGERS, da qual o Brasil participa, com centros em Minas Gerais, entre outros. Estes estudos aplicam intervenções múltiplas (atividade física supervisionada, dieta do tipo MIND, estímulo cognitivo, socialização, controle de doenças cardiovasculares) em indivíduos com risco elevado, e mostraram melhora cognitiva significativa após dois anos de seguimento.

 Assista a gravação na íntegra no Canal ACFB no YouTube