30 set 2025

Conferência “Desenvolvimento da Vacina Brasileira SM14 contra a Esquistossomose”

Nesta segunda-feira, 29 de setembro de 2025, foi realizada a atividade do eixo temático Pesquisa Farmacêutica, Toxicológica e Clínica, parte integrante do programa educacional promovido pela Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil.

O webinar marcou mais um importante momento de convergência entre ciência, inovação e saúde, com a realização da conferência intitulada “Desenvolvimento da Vacina Brasileira SM14 contra a Esquistossomose”, proferida pela renomada pesquisadora Dra. Miriam Tendler.

A sessão foi conduzida por Leonardo Teixeira, acadêmico titular da Cadeira nº 30, ao lado do Dr. Leon Rabinovich, acadêmico emérito da Academia e chefe do Laboratório de Fisiologia Bacteriana do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).

Dra. Miriam Tendler é uma das maiores referências mundiais em doenças infecciosas e parasitárias, com mais de três décadas dedicadas à pesquisa e ao desenvolvimento da vacina SM14, voltada à prevenção da esquistossomose — doença negligenciada que afeta mais de 200 milhões de pessoas no mundo. Médica pela UERJ, doutora em Doenças Infecciosas e Parasitárias, pós-doutora em Biologia Molecular Parasitária pelo Marine Biological Laboratories (EUA), a Dra. Tendler é pesquisadora titular da Fiocruz e coordenadora do Laboratório de Esquistossomose Experimental do IOC.

Durante a conferência, a Dra. Tendler destacou o caráter pioneiro da vacina SM14, que representa a primeira vacina brasileira desenvolvida inteiramente no país, desde a bancada até sua produção final. Com base no antígeno SM14, isolado do Schistosoma mansoni, a vacina não só apresenta eficácia contra a esquistossomose, mas também demonstrou potencial contra a fasciolose — verminose que afeta o rebanho bovino, com importantes implicações na saúde veterinária e na agropecuária.

O imunizante, fruto de um extenso e contínuo esforço científico, alia biotecnologia de ponta, inovação farmacêutica e articulação interinstitucional, tendo sido desenvolvido em colaboração com a Fiocruz, agências de fomento como FINEP e FAPERJ, a Organização Mundial da Saúde, o Ministério da Saúde, além de empresas farmacêuticas nacionais como Biolab e Eurofarma, em uma estratégia de parceria público-privada (PPP). Nos últimos anos, o projeto passou a ser integralmente conduzido pela Fiocruz, com expectativa de que a vacina seja incorporada ao SUS dentro de dois anos e meio.

Outro aspecto enfatizado foi a complexa jornada de validação internacional da tecnologia, enfrentando resistências e preconceitos quanto à origem brasileira da vacina. Para superar esse cenário, a Dra. Tendler articulou diretamente com a Organização Mundial da Saúde e com o escritório diplomático da Missão Brasileira junto à ONU, em Genebra, garantindo respaldo técnico e institucional ao projeto.

A formulação da vacina SM14 utiliza uma proteína recombinante combinada com um adjuvante sintético derivado do Lipídio A, garantindo alto padrão de qualidade e segurança. Esse adjuvante, originalmente licenciado para uma grande indústria farmacêutica, passou por adaptações para uso clínico, sendo hoje parte fundamental da composição do imunizante.

Mais do que uma inovação científica, a vacina SM14 representa uma vitória estratégica para o Brasil, ao demonstrar que é possível realizar no país todo o ciclo de inovação em saúde: da pesquisa básica à produção final de vacinas de alta complexidade, colocando o Brasil na vanguarda mundial no enfrentamento de helmintíases e outras doenças negligenciadas.

Produzir uma vacina com fins humanitários significa também adotar um modelo econômico diferenciado, em que os ganhos financeiros são limitados justamente para garantir que o produto possa atingir o preço-base previsto nas políticas da OMS. Embora a OMS não compre diretamente os imunizantes, ela atua como intermediária entre os fabricantes e os países necessitados, e para isso é imprescindível que o produto siga critérios de preço e qualidade estabelecidos para produtos não-comerciais.

Portanto, o SM14 foi desenvolvido dentro desse marco regulatório de produto humanitário — o que reforça seu compromisso com a equidade no acesso à saúde, e também com o modelo de ciência pública a serviço da população, especialmente em países em desenvolvimento e regiões endêmicas.

Ao final da conferência, ficou evidente que o projeto SM14 vai além do desenvolvimento de um produto: é um marco de soberania científica, tecnológica e farmacêutica, além de um modelo inspirador para futuros projetos de inovação em saúde pública.

A Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil parabeniza a Dra. Miriam Tendler e sua equipe pelo trabalho incansável e visionário, que reafirma o compromisso da ciência nacional com o bem-estar coletivo e o enfrentamento das desigualdades em saúde.