18 jun 2026

Biodiversidade e Nanotecnologia: Webinar apresenta Própolis Vermelha Amazônica como Inovação contra a resistência bacteriana

No dia 15 de junho de 2026, a Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil (ACFB) realizou um webinar do eixo temático Biodiversidade, Plantas Medicinais e Inovação,  tendo como tema o trabalho agraciado com a Menção Honrosa – Categoria Revelação no III Prêmio Pio Corrêa de Inovação em Ciências Farmacêuticas com a Biodiversidade Brasileira – Biossíntese de Nanopartículas de Prata com Própolis Vermelha Amazônica: Caracterização e Atividade Antibacteriana.

A abertura e moderação foram conduzidas pelo Acad. André Faraco, Acadêmico Titular da Cadeira nº 108 e Professor Titular de Tecnologia Farmacêutica na Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

O palestrante Dr. Roberto Pereira Santos, doutorando em Biotecnologia pela Universidade de São Paulo (USP), integra o grupo de pesquisa GenTeCel (Laboratório de Genética e Terapia Celular – USP/UNESP) e o grupo LQPN (Laboratório de Química de Produtos Naturais – UFMA), apresentou a pesquisa “Biossíntese de Nanopartículas de Prata com Própolis Vermelha Amazônica: Caracterização e Atividade Antibacteriana”, que une estudos sobre a riqueza da biodiversidade brasileira à fronteira da nanotecnologia farmacêutica para responder a um dos maiores desafios da saúde pública global: a resistência microbiana.

O Desafio da Resistência e o Potencial da Própolis Amazônica

Abrindo a apresentação, Roberto contextualizou a gravidade do cenário global de resistência antibacteriana, citando estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) que apontam para cerca de 10 milhões de mortes anuais até 2050 devido à escassez de tratamentos eficazes contra superbactérias. Como resposta, a bioprospecção de produtos naturais volta a ser protagonista no desenho de novos fármacos.

A própolis, material resinoso produzido por abelhas a partir de exsudatos vegetais e enzimas salivares, é amplamente reconhecida por suas propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e antimicrobianas. No Brasil, país de dimensões continentais e múltiplos biomas, mapeiam-se 13 tipos diferentes de própolis. A própolis vermelha, tradicionalmente encontrada em regiões litorâneas, tem alto valor agregado e possui como marcador químico clássico a isoflavona formononetina.

O diferencial da pesquisa apresentada reside na descoberta e caracterização, pelo Laboratório de Química de Produtos Naturais da Universidade Federal do Maranhão (LQPN-UFMA), de uma nova variedade de própolis vermelha no bioma amazônico, coletada no extremo norte do estado do Tocantins, no município de Esperantina (região do Bico do Papagaio).

O pesquisador ressaltou que o trabalho está devidamente registrado no SisGen (Sistema Nacional de Gestão do Patrimônio Genético e do Conhecimento Tradicional Associado), um passo indispensável para garantir a legalidade da pesquisa com a biodiversidade nacional e combater a biopirataria (ou biogrilagem).

Metodologia e Descoberta de um Novo Marcador Químico

O processo teve início com a obtenção do extrato bruto utilizando etanol a 70% – proporção ideal para garantir a solubilidade dos bioativos de matriz hidrofóbica como a própolis. Em seguida, realizou-se o fracionamento químico por polaridade crescente (fases hexânica, clorofórmica e acetato de etila). A fração clorofórmica demonstrou maior afinidade com os compostos polifenólicos, registrando um incremento de 53% a 57% no teor de fenólicos totais em relação ao extrato bruto. Devido ao baixíssimo rendimento e teor desprezível de bioativos na fração hexânica (menos de 5%), esta foi descartada dos ensaios subsequentes.

A análise por Cromatografia Líquida de Alta Eficiência (HPLC), em fase reversa, trouxe uma revelação científica importante:

  • Ausência de Biochanina A: Substância comumente identificada em outras própolis vermelhas brasileiras.
  • Presença Majoritária de Calicosina: A calicosina (um isoflavonóide com alta atividade anti-inflamatória e antioxidante) representou de 20% a 30% da área relativa do pico cromatográfico. Sua estrutura foi confirmada por Ressonância Magnética Nuclear (RMN), consolidando-a como o marcador químico exclusivo desta nova variedade amazônica.

 

Síntese Verde (Biossíntese) de Nanopartículas de Prata

Para contornar os gargalos da síntese física (alto consumo energético) e da síntese química tradicional (geração de resíduos tóxicos), o estudo utilizou a síntese verde. O extrato e as frações da própolis atuaram simultaneamente como agentes redutores (convertendo íons $Ag^+$ em prata metálica $Ag^0$) e agentes de capeamento (capping), promovendo o encapsulamento natural das nanopartículas.

A formação das nanoestruturas foi confirmada inicialmente pela mudança macroscópica de coloração (do vermelho característico para marrom escuro) e pela espectroscopia UV-Vis, que exibiu a banda de ressonância plasmônica de superfície (SPR) entre 417 nm e 419 nm, típica de nanopartículas esféricas de prata.

A análise por Espectroscopia no Infravermelho com Transformada de Fourier (FTIR) ratificou a presença de ligações duplas carbono-carbono ($C=C$) de anéis aromáticos e grupos carboxílicos aderidos à superfície das nanopartículas, comprovando que os polifenóis da própolis realizaram com sucesso o capeamento químico, o que otimiza a estabilidade e a biocompatibilidade do sistema coloidal.

Dimensões e Estabilidade Coloidal

  • DLS (Dispersão de Luz Dinâmica): Apontou um diâmetro hidrodinâmico médio de 252 nm. Por mensurar a partícula em meio aquoso circundada pelas macromoléculas do extrato, o valor é superior ao tamanho real do núcleo metálico.
  • MET (Microscopia Eletrônica de Transmissão): Realizada com a amostra liofilizada (seca), revelou a verdadeira morfologia do biomaterial: nanopartículas predominantemente esféricas e ultrapequenas. O diâmetro médio foi de ~8 nm para as sintetizadas com o extrato bruto, ~9 nm com a fração clorofórmica e ~12,5 nm com a fração acetato de etila.
  • Potencial Zeta e PDI: O Potencial Zeta apresentou valores abaixo de -30 mV, indicando forte repulsão eletrostática entre as partículas, impedindo processos de aglomeração ou precipitação. O Índice de Polidispersão (PDI) em torno de 0,3 chancelou o perfil monodisperso e homogêneo da suspensão.
  • Cristalinidade: Os padrões obtidos por Difração de Raio-X (DRX) e Difração de Elétrons de Área Selecionada (SAED) confirmaram a estrutura cristalina cúbica de face centrada característica da prata pura.

Atividade Antibacteriana Potencializada e Citotoxicidade Seletiva

Os testes biológicos avaliaram a Concentração Inibitória Mínima (CIM) e a Concentração Bactericida Mínima (CBM) contra cepas de relevância clínica: Staphylococcus aureus (Gram-positiva) e Escherichia coli (Gram-negativa).

Os resultados mostraram que a incorporação na plataforma nanotecnológica aumentou drasticamente a potência antimicrobiana quando comparada ao extrato e às frações isoladas. Curiosamente, as nanopartículas foram ainda mais eficazes contra a E. coli do que contra o S. aureus (que demandou o dobro da concentração para obter o mesmo efeito bactericida).

A hipótese mecânica sugere que o envoltório de biomoléculas (capping) da própolis interage com maior facilidade com a bicamada fosfolipídica da E. coli, facilitando a internalização da nanopartícula e permitindo que ela atue em múltiplos sítios intracelulares, inclusive induzindo a produção de espécies reativas de oxigênio (EROs). No caso do S. aureus, a espessa parede de peptideoglicano impõe uma barreira física maior, resultando em uma interação moderada.

Avaliação de Segurança (ISO 10993)

Nos ensaios de citotoxicidade in vitro (MTS) com macrófagos murinos, as nanopartículas obtidas a partir do extrato bruto e da fração clorofórmica demonstraram excelente perfil de segurança nas concentrações bactericidas eficientes (25 e 12,5 µg/mL), situando-se com folga dentro dos limites normativos da ISO 10993 (viabilidade celular mantida acima de 70%). Nestas doses, o material inclusive estimulou a proliferação celular, um indicador promissor para processos de reparo tecidual. Por outro lado, as nanopartículas geradas com a fração acetato de etila demonstraram toxicidade na faixa de 50 µg/mL.

A equivalência de resultados e a maior segurança do extrato bruto em relação às frações purificadas justificam a utilização direta do extrato bruto na síntese verde, eliminando etapas onerosas de fracionamento industrial e tornando o processo economicamente mais sustentável.

 

Participe das próximas atividades

O programa educacional da Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil oferece atividades gratuitas ao longo do ano. Os interessados podem acompanhar a agenda de eventos e participar das próximas discussões promovidas pela instituição.

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