03 mar 2026

Webinar abre calendário de 2026 com debate aprofundado sobre o papel do laboratório clínico no diagnóstico das leucemias agudas

No dia 2 de março de 2026, a Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil deu início ao seu calendário anual de atividades com um webinar do eixo temático de Análises Clínicas e Toxicológicas. O encontro, realizado de forma virtual, reuniu acadêmicos, profissionais e estudantes para discutir o tema “O papel do laboratório clínico no diagnóstico das leucemias agudas: uma visão atualizada da OMS e ICC”.

A moderação foi conduzida pelo Acadêmico Titular Adilson Kleber Ferreira, coordenador do eixo temático, que destacou a importância do programa educacional da Academia — iniciativa gratuita viabilizada pelo apoio de mantenedores do setor farmacêutico — e reforçou o compromisso institucional com a atualização científica contínua.

A palestra principal foi ministrada pelo Acadêmico Titular Raimundo Antônio Gomes Oliveira, professor associado da Universidade Federal do Maranhão, pesquisador em onco-hematologia e referência nacional em mielograma, imunofenotipagem e citometria de fluxo.

 

Integração diagnóstica: morfologia, imunofenotipagem e genética molecular

Ao longo de sua exposição, o professor Raimundo apresentou uma análise abrangente e didática sobre os fundamentos e as atualizações das classificações das leucemias agudas segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a International Consensus Classification (ICC).

Um dos pontos centrais abordados foi a mudança de paradigma no diagnóstico das leucemias agudas. Tradicionalmente, o critério morfológico de ≥20% de blastos na medula óssea ou no sangue periférico definia a doença. Contudo, a partir das atualizações de 2022, determinadas alterações genéticas recorrentes permitem o diagnóstico de leucemia aguda mesmo com percentual inferior a 20% de blastos — e, segundo a ICC, em alguns casos com limite reduzido para 10%.

O palestrante enfatizou que:

  • A morfologia continua indispensável, especialmente para a contagem de blastos;
  • A imunofenotipagem define a linhagem celular (mieloide, linfoide B, linfoide T ou fenótipo misto);
  • A genética molecular estratifica prognóstico e direciona terapias-alvo;
  • A integração com dados clínicos é determinante, sobretudo na distinção entre leucemias primárias e secundárias.

Segundo o especialista, “não existe diagnóstico isolado por técnica única”. O laboratório moderno deve operar sob uma lógica multivariada, integrando clínica, morfologia, citometria de fluxo e biologia molecular.

Leucemia aguda: conceito biológico e desafios diagnósticos

Durante o webinar, foi reforçado que, na onco-hematologia, o conceito de “agudo” não está necessariamente relacionado à velocidade de evolução clínica, mas ao bloqueio maturativo na hematopoese.

O professor também alertou para equívocos frequentes na rotina laboratorial:

  • Nem toda leucemia aguda cursa com leucocitose importante;
  • Pancitopenia sem blastos circulantes não exclui diagnóstico;
  • O mielograma permanece essencial quando há citopenias inexplicadas;
  • A contagem morfológica de blastos não deve ser substituída pela citometria de fluxo, conforme orientam OMS e ICC.

Foi discutida ainda a importância da avaliação de possíveis discrepâncias entre sangue periférico e medula óssea, especialmente em casos de hemodiluição do aspirado medular.

 

Leucemia Promielocítica Aguda: urgência diagnóstica

Um dos momentos de maior ênfase da apresentação foi a discussão da Leucemia Promielocítica Aguda (LPA), associada ao rearranjo PML-RARA.

O professor destacou a necessidade de reconhecimento morfológico rápido dos promielócitos neoplásicos — inclusive nas bordas do esfregaço — devido ao risco de complicações hemorrágicas graves e morte precoce. A identificação precoce permite início imediato de terapias específicas, como ATRA e trióxido de arsênio.

Também foram abordadas variantes moleculares menos comuns, reforçando que a ausência do rearranjo clássico não exclui o diagnóstico e exige investigação genética ampliada.

 

Classificação atual: evolução histórica e aplicação prática

O palestrante contextualizou que as classificações atuais são resultado de décadas de avanços científicos, incorporando descobertas citogenéticas desde a década de 1970, como:

  • Translocação t(8;21);
  • Inversão do cromossomo 16;
  • Cromossomo Filadélfia;
  • Rearranjos envolvendo KMT2A.

Ele destacou que a antiga classificação FAB permanece como base morfológica quando não há alterações genéticas definidoras, mas que, sempre que uma alteração molecular específica é identificada, o diagnóstico passa a ser definido geneticamente — com implicações diretas no prognóstico e no tratamento.

Interação e discussão de casos

Na sessão de perguntas, foram debatidos encaminhamentos diante de hemogramas com anemia, leucopenia com neutropenia e plaquetopenia. O professor reforçou que pancitopenias devem sempre ser investigadas com estudo medular completo, incluindo correlação obrigatória com o hemograma, conforme preconizam OMS e ICC.

Foi ressaltada a importância do controle pré-analítico e da análise crítica de possíveis discrepâncias entre sangue periférico e aspirado medular.

 

Assista a gravação na íntegra no Canal ACFB no YouTube