
A conferência de Dr. Cecilio Venegas ofereceu aos participantes uma rara oportunidade de compreender a profunda conexão entre a farmácia e as grandes transformações da história moderna desde as navegações até o surgimento das farmacopeias organizadas.
“Brasil e a Primeira Farmácia que Deu a Volta ao Mundo”
Eixo Temático: Educação em Ciências Farmacêuticas
Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil – 11 de agosto de 2025
No dia 11 de agosto de 2025, o Eixo Temático Educação em Ciências Farmacêuticas promoveu, como parte do Programa Educacional da Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil, a conferência internacional intitulada “Brasil e a Primeira Farmácia que Deu a Volta ao Mundo”. O evento foi realizado virtualmente, pela plataforma Zoom, e foi ministrado em espanhol pelo conferencista convidado Dr. Cecilio José Venegas Fito.
A atividade teve moderação do Acadêmico Pedro de Oliveira, titular da Cadeira nº 106 e curador do Espaço Memória das Ciências Farmacêuticas no Brasil. O Eixo Temático é coordenado pela Acadêmica Silvia Storpirtis, titular da Cadeira nº 11.
Com rigor histórico e profundidade científica, o Dr. Cecilio Venegas — PhD em Farmácia pela Universidade de Sevilha, presidente do Colégio Oficial de Farmacêuticos de Badajoz, membro do Plenário do Conselho Geral dos Colégios de Farmacêuticos da Espanha, e Correspondente Estrangeiro da Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil — conduziu uma verdadeira aula sobre a farmácia embarcada nas grandes expedições marítimas do século XVI.
Entre os pontos abordados, destacam-se:
- A Farmácia na Expedição de Magalhães e Elcano (1519-1522): Pela primeira vez, uma farmácia navegou ao redor do planeta, a bordo da expedição hispano-portuguesa que completou a primeira circum-navegação do globo. O responsável pelo arsenal terapêutico da frota foi o boticário Juan Bernal, de Sevilha, que preparou os medicamentos que compuseram a botica da viagem.
- Brasil como Rota Estratégica: A expedição tocou o território brasileiro em 29 de novembro de 1519, na Baía de Santa Lúcia (atual Baía de Guanabara), revelando o papel do Brasil como ponto de escala e de contato entre o Novo Mundo e as rotas marítimas europeias.

- A precariedade sanitária nas caravelas: O conferencista descreveu as condições sanitárias adversas a bordo: alimentação pobre (biscoitos bolorentos, carne salgada), água de péssima qualidade e a ocorrência de inúmeras doenças — como escorbuto, sífilis, peste marítima, varíola, tifo, tuberculose, entre outras. Os remédios disponíveis eram básicos e muitas vezes ineficazes.


- Medicamentos e insumos da época: A farmácia da expedição incluía preparações como unguentos, azeites medicinais, simples de origem vegetal e mineral, como alúmen, cânfora, gengibre, pimenta-do-reino, açafrão, cânfora e o mítico “triaca magna”, mistura polivalente com até 60 ingredientes, incluindo carne de víbora.

- A dualidade da farmácia renascentista: Foi ressaltada a ambiguidade entre o papel científico e comercial do boticário na época. A botica era, ao mesmo tempo, um centro de saber empírico e um negócio vinculado ao comércio marítimo.
- A esperança nas drogas do Novo Mundo: Com o avanço das navegações, plantas medicinais americanas como quina, coca, jaborandi, curare, catuaba, cacau e outras começaram a circular na Europa, transformando a farmácia e alimentando o desenvolvimento de um saber farmacêutico mais eficaz e diversificado.
A conferência de Dr. Cecilio Venegas ofereceu aos participantes uma rara oportunidade de compreender a profunda conexão entre a farmácia e as grandes transformações da história moderna desde as navegações até o surgimento das farmacopeias organizadas. Ao reconstituir com riqueza de detalhes o contexto sanitário das grandes viagens marítimas e o papel dos boticários, o evento reforçou a relevância da memória científica como elemento essencial para a formação de uma consciência crítica sobre as ciências farmacêuticas.
Essa atividade não apenas iluminou um capítulo pouco conhecido da história da farmácia, como também reafirmou o compromisso da Academia com a educação continuada, a internacionalização do conhecimento e a valorização do patrimônio histórico-científico.
As ações do Programa Educacional da Academia são gratuitas e contam com o apoio dos mantenedores: EMS, Sindusfarma, Eurofarma, HyperaPharma, Abafarma, Abifina, BD, FCE Pharma, Hypofarma, ICF, Sincamesp, Stevanato Group e Wheaton Brasil.
