19 nov 2018

OTHON DE CARVALHO BASTOS

ACADEMIA NACIONAL DE FARMÁCIA
DISCURSO DE POSSE

OTHON de Carvalho BASTOS
(em 17/03/2009)

Boa noite a todos os presentes!

Não é fácil elaborar um discurso em uma cerimônia de posse em uma Academia Nacional, como a que estou tendo a felicidade no momento de vivenciar. Como os senhores hão de convir, trata-se de tarefa árdua para quem se dedica ao ensino, à pesquisa, à extensão e à gestão, em saúde, educação e tecnologia.

Mas, por força do destino, ao ter que elaborar esta honrosa oração, dirigida aos doutos acadêmicos da Academia Nacional de Farmácia, a partir de hoje, meus colegas acadêmicos, e demais autoridades presentes, dispunha apenas de dois caminhos: o primeiro, seria o de ler o que foi escrito por um ghostwriter, e, o segundo, seria tentar expressar os meus próprios pensamentos a respeito de tão augusto momento. Confesso que foi realmente difícil para a minha pessoa tomar qualquer decisão. Senteime diante do computador e comecei a encará-lo e a pensar. Por várias
vezes tive que religá-lo, por não tê-lo tocado e o tempo de espera se esgotando. Foi quando me recordei de uma frase do físico Albert Einstein, fruto da leitura de uma das suas obras:

“A imaginação é mais importante que o conhecimento”.

Bom, aí não tive dúvida, comecei a imaginar e preparei a seguinte oração:

Ilmo. Senhor Acadêmico Caio Romero Cavalcanti
Digníssimo Presidente da Academia Nacional de Farmácia,
Senhores componentes da Mesa,
Autoridades Presentes,
Minhas senhoras e meus senhores.

Permitam-me, senhoras e senhores, iniciar, portanto, a presente oração, lembrando que a Farmácia e a Medicina tiveram origens comuns, marcadas pela teoria religiosa da origem do homem. Recordem os senhores, que essa teoria se alicerça no Velho Testamento, onde está escrito como Deus criou o céu, a terra e o mar, e projeta a afirmação de que o homem foi criado à Sua imagem e semelhança, para que tivesse o domínio sobre “os peixes do mar, sobre as
aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra”[Gên.,1:26-31].

A cultura religiosa dos povos que fizeram parte dos primórdios da civilização humana impedia a investigação de pensamentos que se contrapunham ao livro sagrado da época – hoje, a Bíblia. A imposição da verdade religiosa jamais permitiria pensar na imperfeição de um corpo que era semelhante ao de Deus. Os defeitos orgânicos de um
indivíduo, independentemente do estágio de desenvolvimento corporal do ser, eram considerados castigo de Deus, devido a pecados capitais praticados por seus pais ou a invasão do corpo humano por demônios
malévolos. Nessa época, os indivíduos considerados anormais ou pecadores eram colocados em depósitos humanos, situados em pontos distantes de centros urbanos.

Em tempos mais adiante, quando foi sendo constatado que as imperfeições poderiam ser recuperadas por encantamentos: danças, efeitos mágicos, charmes, talismãs ou outras medidas, o interesse pela nova descoberta – a recuperação corporal do homem defeituoso ou doente – desviou o centro das atenções, que era Deus, o Criador do Universo Perfeito, para o inusitado que se descortinava como atraente: o próprio homem.

No período pós-charlatanismo nascem a medicina e a farmácia empíricas. A retirada das doenças consideradas como
imperfeições corporais naquela época, conhecidas hoje como loucura, epilepsia e dor de cabeça, deixou de ser feita por bruxaria para ser feita por trepanação do crânio ou indução de vômitos violentos, causados por drogas eméticas. Aparecem, também, tratamentos adicionais incluindo o uso de purgantes, diuréticos, laxantes e enemas. Os maiores sucessos foram alcançados pelo uso de extratos de plantas medicinais.

Na 3a Dinastia egípcia, o profissional da saúde era um misto de médico, farmacêutico, feiticeiro, padre e psicólogo. Os registros citam Imhotep como o primeiro feiticeiro/padre que viveu em 2725 AC. Foi no Egito que a clínica médica teve sua origem, uma vez que introduziram a prática de conhecer a história do doente (a anamnese) e aplicar a palpação. As prescrições já indicavam laxantes, como óleo de rícino e ácido tânico. Embora os egípcios empregassem muito bem a técnica do embalsamento, eles pouco conheciam de anatomia. As cirurgias eram
elementares, com exceção da trepanação.

A medicina antiga desenvolveu-se em várias regiões e países. No Egito, o seu início foi registrado há mais de 2 mil e 500 anos. No Oriente Médio, há mais de 2 mil anos – vale destacar, neste particular que, o Código de Hammurabi, que serviu de fonte para o Direito Romano, já incluía definições de condutas médicas. Na Grécia antiga,
era comportamento comum da população sair para matar cobras, toda vez que ocorria uma peste ou uma epidemia – eles acreditavam que os seres demoníacos eram os causadores das doenças. Como a figura grega Asclépio dominava as doenças por andar com uma cobra enrolada em seu bastão, a serpente no bastão passou a ser o símbolo da Medicina, e a taça e a serpente de Hígia, que era a deusa da Saúde e filha de Asclépio, passou a ser o símbolo da Farmácia.

A Medicina e a Farmácia andaram juntas por muitos séculos, portanto. Além das serpentes em seus símbolos, os santos Cosme e Damião, um médico e outro farmacêutico, que foram perseguidos pelo Imperador Diocleciano e se tornaram mártires cristãos de origem árabe, são os Patronos dessas duas Ciências da Saúde.

A medicina despontou como importante para o mundo, e para todos, ainda na antiga Grécia. Hipócrates, que viveu no período de 460 a 355 a. C., publicou 70 livros médicos, compostos em versos. Considerado, hoje, como o Pai da Medicina, atribui-se a ele a autoria de vários escritos, como Do Regime nas Doenças Agudas; Os Aforismos; As
Epidemias; O Juramento; Das Feridas na Cabeça; Dos Ares, das Águas e dos Lugares e Da Antiga Medicina.
Em 1240, a Farmácia foi separada oficialmente da Medicina por um edital de Frederico II, Imperador da Prússia, que estabeleceu na mesma época um código de ética profissional. Porém, o estudo de drogas não cresceu suficientemente para justificar a existência da profissão farmacêutica até o Século XVII No Século XX, milhares de drogas novas foram disponibilizadas ao uso médico, resultado de incessantes pesquisas farmacêuticas. Após o desenvolvimento da sulfa nos anos trinta e da penicilina nos anos quarenta, a indústria farmacêutica agregou-se à
pesquisa intensiva de antibióticos, anti-histamínicos, hormônios, vitaminas e muitos outros tipos de drogas atualmente em uso.

Não mais do que algumas décadas, ainda dispúnhamos de Farmácias com seus profissionais farmacêuticos habilitados e fortemente vinculados à relação de confiança médico-farmacêutico-paciente. O período industrial influenciou tática e cruelmente na separação desses dois profissionais, levando-os a se sentirem distantes entre si e até mesmo a não se conhecerem profissionalmente.

Mas, os tempos estão mudando. O ressurgimento da Farmácia de Manipulação, como atividade restrita ao farmacêutico, vem acontecendo de forma natural. O fato da produção e dispensação do medicamento serem realizados por profissionais farmacêuticos competentes, envolvendo a orientação correta do paciente, quanto ao uso
e aos cuidados que deve ter com o produto, e dos médicos, quanto as dosagens, farmacologia e interações medicamentosas, está reaproximando esses importantes profissionais da área da saúde, novamente.

A Medicina é a ciência, arte de curar e prevenir doenças e preservar a saúde. A Farmácia é a ciência e arte de preparar medicamentos. Formas distintas de buscar sempre o mesmo objetivo: a saúde do homem.
As difusões dessas verdades, dos conhecimentos sobre as ciências da saúde, seguiram histórias próprias, mas profundamente semelhantes à evolução da historia da transmissão do conhecimento universal, cujos pontos iniciais podem ser atribuídos tanto para a Academia de Platão como para o Liceu de Aristóteles: Reuniões iniciais
entre grupos de pessoas em torno de temas de interesse do conhecimento, sem qualquer hierarquia rigidamente definida. Em seguida, dando saltos significativos na História, verificase na Idade Média, a presença de grupos de estudantes e grupo de professores diferenciados. E estes grupos resolveram criar suas universidades. Foi, assim, que nos Séculos XI e XII surgiram as Universidades de Paris e Bologna. Espalhando-se pelo mundo, as Catedrais do Saber – as Universidades – passaram a serem essenciais para o desenvolvimento de todo e qualquer país.

No Brasil, consideramos que a História da Farmácia brasileira tenha o seu início com a personalidade do jesuíta José de Anchieta, que era padre e considerado o primeiro boticário de Piratininga (SP). Isto, porque os remédios eram oriundos de plantas medicinais nativas e os melhores conhecimentos pertenciam aos colégios religiosos. Nasceram, daí, as primeiras boticas no Brasil, com destaque para a Bahia, Olinda, Maranhão, Rio de Janeiro e São Paulo. O Colégio do Maranhão, colégio católico, dispunha de uma farmácia flutuante denominada de Botica do Mar. Este barco tinha a missão de abastecer as localidades situadas ao longo da costa brasileira, entre o Maranhão até
Belém do Pará.

Em 20 de janeiro de 1916, no Rio de Janeiro, foi fundada a Associação Brasileira de Farmacêuticos. Os trabalhos foram dirigidos pelo farmacêutico Luiz Oswaldo de Carvalho, que não perdeu a oportunidade da instalação da Associação e definiu os objetivos principais da Associação em defesa dos interesses da classe, demonstrando a
igualdade da responsabilidade profissional entre farmacêuticos (da aplicação das ciências físico-químicas à arte de curar) com as dos  6 médicos. Propôs a criação da Escola Superior de Farmácia, onde foram instalados consultórios para atendimento aos pobres e ao mesmo tempo campo de estágio para seus estudantes.

A Associação Brasileira de Farmacêuticos teve a sua primeira presidência exercida de 1916 a 1919, por Luiz Oswaldo de Carvalho – Presidente – e Alfredo da Silva Moreira – Vice-Presidente.

Em 1920, assumiu a Presidência, o farmacêutico Rodolpho Albino Dias da Silva. Enquanto Oscar Pereira França foi seu VicePresidente.

Em 1921, ocuparam os cargos da Presidência da Associação, os farmacêuticos Rodopho Albino Dias da Silva e Paulo Seabra.

Na quarta Presidência da Associação, é que aparece como Presidente Júlio Eduardo da Silva Araujo e HERCULANO CALMON DE SIQUEIRA, como Vice- Presidente.

Nascida da decisão tomada em Assembléia Geral Extraordinária da Associação Brasileira de Farmacêuticos, na data em que reorganizava seu Conselho Científico, em 13 de agosto de 1937, a Academia Nacional de Farmácia teve a sua primeira diretoria eleita para o período de 18 de agosto de 1937 a 13 de agosto de 1939. A presidência foi ocupada pelo acadêmico João Vicente de Souza Martins e a VicePresidência, pelo acadêmico Antenor Machado. Gerardo Magella Bijos ocupou a 1ª Secretaria Geral. E a Cadeira de número 38, da Seção de Ciências Físicas e Químicas desta Academia, foi ocupada pelo Dr.

HERCULANO CALMON DE SIQUEIRA, o qual, como disse, ocupou a Vice-Presidência da Associação Brasileira de Farmacêuticos.

Destacado pesquisador da Bromatologia e Toxicologia, Dr. Herculano Calmon de Siqueira, foi farmacêutico do Laboratório Nacional de Analyses, no Rio de Janeiro, e destacou-se nacionalmente com a publicação do trabalho “CONTRIBUIÇÃO PARA A PESQUISA DO BICARBONATO DE SÓDIO NO LEITE”.

Portanto, senhoras e senhores, é exatamente esta Cadeira de número 38, que tem o Dr. HERCULANO CALMON DE SIQUIRA como seu PATRONO, que tenho a honra de assumi-la aqui, neste augusto evento, em substituição a Profa. Dra. MARIA IRACEMA LUCAS, sua última ocupante. O meu ingresso foi aprovado por unanimidade pelos
meus confrades, designados pelo Presidente Dr. Caio Romero Cavalcanti, no dia 20 de outubro de 2008. Portanto, Dr. CAIO ROMERO CAVALCANTI, os meus sinceros agradecimentos pela sua dedicação, generosidade e envolvimento no processo que resultou da inclusão do meu nome neste quadro de vencedores no mundo das ciências farmacêuticas.

Agradeço da mesma forma aos confrades e confreiras presentes nesta augusta mesa diretora dos nossos trabalhos de hoje:

Dr. Mateus Mandu de Souza
Dr. João Paulo Silva Vieira
Dra. Terezinha de Jesus Almeida Silva Rêgo
Dr. Antônio Benedito Oliveira

Tenho a convicção de que não foi somente o meu esforço pessoal, durante a minha caminhada profissional, o grande responsável pelo ingresso neste respeitável sodalício. Todos que fizeram da minha pessoa a personalidade que sou estão presentes, quer material ou espiritualmente, neste ato, ocupando o mesmo espaço na Cadeira 38.

Gostaria muito de elencá-los neste momento, mas como são muitos e sei que todos estão conscientes da sua parcela importante do meu desenvolvimento pessoal e profissional, quer pela minha geração (Deus e meus pais), quer pelas orientações, irmandade, companheirismo, amizade e coleguismo, do dia a dia que tive como aluno, professor, pesquisador, Reitor e Secretário de Estado, assim como, também, pela devoção e carinho dos meus familiares. Todos recebam o agradecimento de quem jamais poderá esquecer o que foi feito no caminho da minha perfeição
como homem e como profissional dedicado ao tudo que acredito e faço, “segredo” da razão de ser o dia de hoje.
Finalizo, aproveitando a presença da comunidade universitária, essência de qualquer Academia de Ciência, para reafirmar o meu compromisso com a Universidade Moderna, que se constitui num eterno torvelinho de mutações através dos tempos, num eterno dinamismo que acompanha o despertar da mente humana para a busca
de dias cada vez melhores para o homem e para o seu universo de vida.

A Universidade de hoje tem que formar profissionais com pensamentos criativos, ecológicos e críticos. Tem que levar em consideração a individualidade dos seus alunos: cada um tem o seu próprio ritmo de trabalho, de estudo e preferência de formação. Tem que socializar seus conhecimentos, facilitando acessos para todos aqueles que
se disponha a freqüentar o curso superior. Tem que ser moderna, para que possa manter o seu conhecimento atualizado. Tem que ser autônoma, para traçar suas políticas administrativas e acadêmicas. Tem que ser um
grande centro de pesquisas científicas, para a geração de sabedoria e de possibilidades, de modo a disponibilizar sempre os novos conhecimentos aos profissionais que se proponham a uma atuação de vanguarda.
Já o universitário atual tem que saber que ele faz parte de um todo. Que ele não está só. Todos precisam dele e ele de todos. Que seus pensamentos e seus conhecimentos não podem ser propriedade privada dele. O seu patrimônio cultural é da humanidade. Tem que estar disponibilizado para o Mundo, assim como, o Mundo estar
disponibilizado para ele.

Todos nós sabemos que o Universo em que vivemos está em expansão, mas, está em perfeito equilíbrio. O seu equilíbrio depende de tudo, por menor que seja a fração da matéria ou da energia. Albert Einstein, na década de 50, já tinha essa visão, essa compreensão, e nos passava seu pensamento quando disse:

“O ser humano vivencia a si mesmo, seus pensamentos como algo separado do resto do universo que o cerca, uma espécie de ilusão de ótica de sua consciência, moldado pela cultura. E essa ilusão é um tipo de prisão que nos restringe a nossos desejos pessoais, conceitos e ao afeto por pessoas mais próximas. Nossa principal tarefa é a de nos livrarmos dessa prisão, ampliando nosso círculo de compaixão, para que ele abranja todos  os seres vivos e toda a natureza em sua beleza. Poderá ser que ninguém consiga atingir plenamente esse objetivo, mas lutar pela sua realização já é por si só parte de nossa liberação e o alicerce de nossa segurança interior”.

Fico por aqui. Obrigado!