21 set 2026

Kefir: da fermentação tradicional às evidências da farmacologia translacional

Ciência de ponta resgata sabedoria ancestral: como o Kefir cruza a bancada do laboratório rumo à prática clínica.

No dia 21 de setembro de 2026, a Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil (ACFB) realizou o webinar “Kefir: Da Fermentação Tradicional às Evidências da Farmacologia Translacional”, reunindo profissionais, pesquisadores e estudantes da área da saúde de diversas regiões do país. O evento contou com a moderação do Acad. Daniel Campos (Titular da Cadeira nº 112 da ACFB e criador do perfil @farmacocineticabr) e a conferência ministrada pelo renomado farmacologista e pesquisador Dr. Thiago de Melo Costa Pereira.

Professor, orientador de mestrado e doutorado, e líder do Laboratório de Fisiologia e Farmacologia Translacional da Universidade de Vila Velha (UVV-ES), o Dr. Thiago de Melo — também reconhecido nacionalmente pelos canais Farmacologia na Prática e agraciado em 2026 com a Comenda do Mérito Farmacêutico do Conselho Federal de Farmácia (CFF) — apresentou uma síntese de mais de uma década de investigações pré-clínicas e ensaios clínicos sobre o potencial terapêutico desse milenar simbiótico.

O Contexto Histórico e a Ciência do Eixo Intestino-Cérebro

A abertura da palestra resgatou a trajetória do estudo dos microrganismos na medicina. Desde as intuições de Hipócrates (“Toda doença começa no intestino”), passando pelo início da antissepsia com Joseph Lister no século XIX e pelas reflexões de Louis Pasteur e Ilya Mechnikov (Prêmio Nobel em 1908), a ciência evoluiu da simples tentativa de exterminar bactérias para o entendimento de que a microbiota desempenha papéis estruturais, imunológicos, metabólicos e endócrinos cruciais.

Conforme explicado pelo palestrante, a comunicação entre o sistema gastrointestinal e o sistema nervoso central (o eixo cérebro-intestino) ocorre fortemente via nervo vago — com cerca de 80% de vias aferentes (do intestino para o cérebro). Uma microbiota saudável favorece a produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), reduz citocinas pró-inflamatórias (como TNF-alfa, IL-6 e IL-1, IFN-gama) e estimula citocinas anti-inflamatórias (como a IL-10).

Originário das populações do Cáucaso conhecidas por sua alta longevidade, o kefir é um complexo simbiótico formado por uma rede biológica de bactérias e leveduras (ultrapassando por vezes 50 espécies diferentes).

Evidências Pré-Clínicas na Bancada de Laboratório

O grupo de pesquisa liderado pelo Dr. Thiago de Melo acumula publicações internacionais (em periódicos como Journal of Translational Medicine, Food Chemistry, Life Sciences, Journal of Functional Foods e Nutrition) demonstrando múltiplos mecanismos de ação do kefir e de seus constituintes:

  1. Ação Cardioprotetora e Anti-hipertensiva (Efeito Captopril-like): Em modelos animais espontaneamente hipertensos (SHR) e com hipertensão renovascular (modelo 2R1C), a administração do kefir demonstrou redução da pressão arterial e melhora da arquitetura endotelial. A análise proteômica realizada em parceria com a Universidade de Liège (Bélgica) isolou um peptídeo sintético de 7 aminoácidos (denominado KF1) capaz de inibir diretamente a Enzima Conversora de Angiotensina (ECA), reduzindo os níveis teciduais e plasmáticos de Angiotensina II.
  2. Propriedades Ateroprotetoras e Antioxidantes: Em camundongos deficientes do receptor de LDL (LDL knockout), o tratamento crônico atenuou substancialmente a formação de placas ateroscleróticas na aorta, devido à imunomodulação (redução de IL-6 e aumento de IL-10), independentemente do nível de colesterol plasmático.
  3. Gastroproteção, Ação Antigenotóxica e Integridade Intestinal: Em modelos de lesão gástrica induzida por AINEs (indometacina), o kefir exibiu efeito gastroprotetor e antigenotóxico (comprovado pelo ensaio do cometa). No intestino, testes de Western Blot evidenciaram que o kefir reverte a queda da expressão da proteína ocludina em quadros de colite, restaurando as junções de oclusão e prevenindo a permeabilidade intestinal (leaky gut).
  4. Ação Protetora contra Contaminantes: Em testes com exposição ao bisfenol A (BPA) em animais jovens, a suplementação com kefir atuou prevenindo e revertendo o aumento da pressão arterial sistólica e diastólica induzido pelo disruptor endócrino.

Transpondo a Lacuna: A Farmacologia Translacional na Prática Clínica

Superando o desafio de transpor os achados de bancada para o tratamento humano, o laboratório avançou para ensaios clínicos piloto e relatos inéditos:

  • Doença de Alzheimer: Em estudo publicado com idosos diagnosticados com Alzheimer, a suplementação com o simbiótico promoveu melhora nos escores de status cognitivo (memória, visão espacial e funções executivas/linguagem, avaliados por testes neuropsicológicos como o Clock Test), acompanhada da redução de estresse oxidativo e queda de citocinas inflamatórias (TNF-alfa, IL-8, IL-12).
  • Encefalite de Rasmussen e Crises Convulsivas: O grupo registrou o primeiro caso mundial de redução drástica nas crises convulsivas refratárias em um adolescente com Encefalite de Rasmussen suplementado com kefir. O tratamento associou-se à recuperação da microbiota benéfica (Bifidobacterium e Lactobacillus), além de efeitos antigenotóxicos e redução de citocinas inflamatórias.
  • Depressão Maior (Terapia Adjuvante): Em ensaio clínico com mulheres em tratamento com escitalopram que mantinham resposta insatisfatória, a adição de kefir como adjuvante reduziu significativamente os escores da escala de depressão de Hamilton, associando-se à queda de PCR, VHS, IL-6, cortisol e melhora da sensibilidade à insulina.
  • Doença do Refluxo Gastroesofágico e Novas Apresentações (Kefir Liofilizado): Em parceria com a gastroenterologia e em aliança com formulações tecnológicas (kefir liofilizado em cápsulas), pesquisas recentes comprovam o efeito sinérgico na aceleração da cicatrização da esofagite e redução do estresse oxidativo proteico e lipídico em pacientes sob uso de inibidores de bomba de prótons.

Participe das próximas atividades

O programa educacional da Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil oferece atividades gratuitas ao longo do ano. Os interessados podem acompanhar a agenda de eventos e participar das próximas discussões promovidas pela instituição.

Além disso, todas as edições dos webinars e eventos já realizados estão disponíveis para acesso no Canal ACFB da Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil no YouTube, permitindo rever conteúdos e acompar os debates promovidos pela Academia.

As atividades educacionais da ACFB são viabilizadas graças ao apoio institucional de seus mantenedores: EMS, Sindusfarma, Eurofarma, HyperaPharma, Abafarma, Abifina, BD, FCE Pharma, Hypofarma, ICF, Sincamesp, Stevanato Group e Wheaton Brasil.