07 abr 2026

Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil promove atividade sobre biodescoberta a partir de cianobactérias

No dia 6 de abril de 2026, a Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil (ACFB) realizou mais uma atividade de seu Programa Educacional, no âmbito do eixo temático “Insumos Farmacêuticos”. A sessão foi moderada pelo Acadêmico Titular Leoberto Tavares, docente da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), e contou com a palestra da professora Camila Manoel Crnkovic, também docente da mesma instituição.

Intitulada “Tecnologia e biodiversidade: cianobactérias como fonte de compostos bioativos”, a apresentação abordou, de forma integrada, conceitos de farmacognosia, biotecnologia e inovação em descoberta de fármacos, destacando o papel estratégico da biodiversidade brasileira na prospecção de novas moléculas bioativas.

Produtos naturais e inovação farmacêutica

A palestrante iniciou sua exposição contextualizando a relevância dos produtos naturais no desenvolvimento de medicamentos. Dados recentes indicam que aproximadamente 67% das pequenas moléculas aprovadas como fármacos entre 1981 e 2019 são direta ou indiretamente derivadas de produtos naturais, reforçando sua importância não apenas como entidades químicas finais, mas também como inspiração estrutural para o desenvolvimento de novos compostos.

Historicamente associada às plantas, a descoberta de moléculas bioativas expandiu-se significativamente com o advento da microbiologia, especialmente após a descoberta da penicilina. Nesse contexto, a exploração de microrganismos pouco estudados surge como uma estratégia promissora para ampliar o repertório químico disponível à terapêutica.

Cianobactérias: diversidade, adaptação e potencial bioativo

As cianobactérias, microrganismos procarióticos fotossintetizantes, foram destacadas como um grupo de elevado interesse. Consideradas uma das formas de vida mais antigas do planeta, desempenharam papel crucial na oxigenação da atmosfera terrestre e apresentam ampla capacidade adaptativa, sendo encontradas em ambientes extremos e diversos biomas, incluindo os brasileiros.

Embora frequentemente associadas a florações tóxicas, essas espécies produzem uma vasta gama de metabólitos secundários com funções ecológicas, como proteção contra radiação ultravioleta, defesa contra predadores e competição por recursos. Do ponto de vista farmacêutico, tais compostos demonstram potencial em diversas atividades biológicas, incluindo ações antiproliferativa, antibacteriana, antifúngica e antiviral.

Um exemplo emblemático apresentado foi o da dolastatina 10, um peptídeo inicialmente isolado de um molusco marinho, posteriormente identificado como produto de cianobactérias. A partir dessa molécula, foram desenvolvidos derivados que culminaram em um conjugado anticorpo-fármaco atualmente utilizado na prática clínica, evidenciando o potencial translacional desses metabólitos.

Do ambiente ao fármaco: estratégias de biodescoberta

A professora detalhou o fluxo de trabalho adotado em seu grupo de pesquisa, que envolve etapas desde a coleta de amostras ambientais, isolamento e cultivo de linhagens, até a extração, fracionamento guiado por bioatividade e elucidação estrutural dos compostos.

Um dos desafios centrais nesse processo é evitar a redescoberta de moléculas já conhecidas. Para isso, são empregadas estratégias de desreplicação, que utilizam técnicas espectrométricas e bases de dados para identificação rápida de compostos previamente descritos, permitindo priorizar amostras com maior potencial de ineditismo.

Integração de tecnologias: metabolômica e genômica

A apresentação destacou o uso integrado de ferramentas avançadas, como metabolômica baseada em espectrometria de massas (LC-MS), redes moleculares e plataformas bioinformáticas, que permitem a análise de grandes volumes de dados e a correlação entre estrutura química e atividade biológica.

Em um dos estudos apresentados, a análise de 19 linhagens de cianobactérias brasileiras resultou na identificação de quatro novos compostos, denominados esquizotrinas, com atividade antibiótica promissora, incluindo ação contra Bacillus anthracis. O trabalho envolveu colaboração internacional e utilização de biorreatores para produção em escala.

Outro projeto combinou redes moleculares com a ferramenta DAF Discovery, baseada em análise de covariância, permitindo associar sinais espectrais à bioatividade observada e identificar famílias de compostos com potencial inédito, incluindo policetídeos ainda em processo de caracterização.

Mineração genômica e o futuro da descoberta de fármacos

Avançando para a abordagem genômica, a palestrante apresentou estratégias de mineração de genomas para identificação de biosynthetic gene clusters (BGCs), responsáveis pela produção de metabólitos secundários.

Utilizando a ferramenta AntiSMASH e um algoritmo desenvolvido pelo próprio grupo, denominado BGCpri, foram analisados 106 genomas de cianobactérias brasileiras, resultando na identificação de 768 clusters biossintéticos. O sistema de pontuação desenvolvido permite priorizar clusters com maior potencial de gerar compostos inéditos, orientando de forma mais eficiente os esforços experimentais.

Os resultados indicaram que a biodiversidade brasileira apresenta potencial biossintético comparável ou superior a organismos já amplamente estudados, reforçando a relevância estratégica de investimentos em ciência e tecnologia no país.

Ciência, colaboração e formação

Além dos avanços científicos, a professora destacou o papel da formação de recursos humanos e da colaboração interdisciplinar, com participação de estudantes de iniciação científica, pós-graduação e parcerias nacionais e internacionais.

O grupo mantém atualmente uma coleção significativa de linhagens e extratos de cianobactérias, disponíveis para triagens biológicas, e desenvolve também iniciativas de divulgação científica e mentoria, com foco na promoção da diversidade e inclusão na ciência.

Considerações finais

A atividade evidenciou como a integração entre biodiversidade, tecnologia e conhecimento interdisciplinar pode impulsionar a descoberta de novos insumos farmacêuticos. A exploração de cianobactérias brasileiras, aliada a ferramentas modernas de análise, posiciona-se como uma fronteira promissora para a inovação em fármacos.

 

Participe das próximas atividades

O programa educacional da Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil oferece atividades gratuitas ao longo do ano. Os interessados podem acompanhar a agenda de eventos e participar das próximas discussões promovidas pela instituição.

Além disso, todas as edições dos webinars e eventos já realizados estão disponíveis para acesso no Canal ACFB da Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil no YouTube, permitindo rever conteúdos e acompar os debates promovidos pela Academia.

As atividades educacionais da ACFB são viabilizadas graças ao apoio institucional de seus mantenedores: EMS, Sindusfarma, Eurofarma, HyperaPharma, Abafarma, Abifina, BD, FCE Pharma, Hypofarma, ICF, Sincamesp, Stevanato Group e Wheaton Brasil.