01 fev 2018

WAGNER LUIZ RAMOS BARBOSA

WAGNER LUIZ RAMOS BARBOSA

Farmacêutico Industrial pela Faculdade de Farmácia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (1980); Mestrado em Química no Instituto Militar de Engenharia-RJ (1980) e Doutorado em Ciências Naturais na Universidade de Bonn-Alemanha (1994). É Professor Associado IV na Faculdade de Ciências Farmacêuticas na Universidade Federal do Pará e Orientador nos Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas, no de Gestão dos Recursos Naturais e Desenvolvimento Local na Amazônia – Mestrado, e no de Inovação Farmacêutica – Doutorado. É revisor de vários periódicos nacionais e estrangeiros e Consultor do Comitê Técnico Temático de apoio à Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira e Acadêmico Titular da Academia Nacional de Farmácia. Tem experiência na área de Ciências Farmacêuticas, trabalhando principalmente nos seguintes temas: Fitoquímica; Cromatografia Líquida de Alta Performance (LC-DAD e LC-MS) e Etnofarmácia e Assistência Farmacêutica em Plantas Medicinais.

 

João Paulo Vieira, Wagner Luiz Ramos Barbosa, Lauro Domingos Moretto

Mateus Mandu de Souza, Jurandir Auad Beltrão, José Carlos Tavares Carvalho, Caio Romero Cavalcanti, Lauro Domingos Moretto, Wagner Luiz Ramos Barbosa, João Paulo Vieira

Discurso de posse como Membro Titular na Academia Nacional de Farmácia

Exmo. Presidente da ANF, Dr. Lauro Domingos Moretto;
Exmo. Prof. Edson Ortiz, Pró-reitor de Administração representando, neste ato, o Magnífico Reitor da UFPA;
Exmo. Presidente Emérito da ANF, Dr. Caio Cavalcanti;
Exmo. Diretor do Núcleo de Meio Ambiente, Prof. Sergio Moraes;
Exmo. Diretor do Instituto de Ciências da Saúde, Prof. Mauro Acatauassu Nunes;
Exmo. Diretor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas Prof. Carlos Barros;
Minha querida família, senhoras e senhores.

Cumprimentando-os mui cordialmente gostaria de, inicialmente, agradecer ao Acadêmico João Paulo Vieira as gentis palavras introdutórias a mim dirigidas…..

Nasci em 26 de março de 1956, como quarto filho do torneiro mecânico Luiz Pereira Barbosa e da professora Therezinha Ramos Barbosa. Minha infância foi muito feliz, com tudo que se tem direito; proteção da família, brincadeiras no quintal, amigos de rua e muito jogo de futebol….

Com oito anos comecei a perceber que o meu entorno estava se modificando… Mas, nossa vida em família seguia feliz, na medida do possível. Diante das dificuldades que surgiram, entraram em cena os ofícios do Seu Luiz e as habilidades de Dona Therezinha…!

Nesta situação pensei em trabalhar também e como reprimenda ouvi de meu pai: “Nesta família basta um graxeiro, você vai estudar! ”, esse Seu Luiz…

Desde o golpe militar de 1964 a situação socioeconômica dos servidores federais civis se depreciava, o que nos obrigava a estudar em escolas públicas (ainda muito boas naquela época) e também a mudar de casa, sempre que o aluguel extrapolava o orçamento da família. Essa condição determinou a minha formação básica, que se iniciou em março de 1962, antes dos seis anos, na escola Carneiro Felipe, no Rio de Janeiro.

No início de 1966, me habilitei para cursar o primeiro ano do curso ginasial, mas fui barrado por faltarem 26 dias para completar 10 anos. No ano seguinte iniciei o curso ginasial e as seguidas mudanças de endereço me levaram a outros colégios (já com nome de generais e até de marechal!!!) até concluir o ciclo científico, em um cursão pré-vestibular, resultado da mudança no ensino médio perpetrada pelo governo do Estado do Rio de Janeiro em 1973.

Em 1974 fiz meu primeiro vestibular, buscando cursar medicina na Escola Federal de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, felizmente não passei e, no processo, descobri o meu interesse pela Química e a curiosidade em saber como se desenvolviam os medicamentos, o que seria melhor contemplado num curso de Farmácia, claro que esta análise foi feita a posteriori!

Durante o curso, a Faculdade de Farmácia da UFRJ experimentou mudanças na sua organização e estrutura, decorrente da necessidade do Estado Militar Brasileiro de desarticular a discussão política nas Universidades, fazendo com que os universitários fôssemos pulverizados para assistir aulas de departamento em departamento da universidade, frequentando disciplinas em diferentes Institutos (dividir para controlar).

Os estudantes tinham aulas em dois bairros diferentes na cidade do Rio de Janeiro, nas salas clássicas da velha Universidade do Brasil no bairro da Urca, na Zona Sul do Rio, e nas novas dependências dos prédios da UFRJ na Ilha do Fundão, na Zona da Leopoldina!!

Foi um período rico em experiências pessoais e acadêmicas.

Já no segundo semestre de 1975 atuei como bolsista de trabalho, que deveria realizar serviços burocráticos. Mas, por intercessão do Prof. Lafayette, fui para o laboratório. Pela manhã eu cuidava dos aparelhos que à tarde iria usar nas aulas práticas de Biofísica, com o mesmo Professor.

Em 1977, sob a orientação do Professor Benjamin Gilbert e a supervisão do Farmacêutico Luiz Gonzaga, isolei minha primeira substância, o safrol, a partir do óleo de sassafrás, que foi testada pelo Professor Ênio Goulart, com resultado promissor.

Concluído o primeiro ciclo do curso, formado em Farmácia, busquei dar sequência a recém-iniciada atividade de pesquisa, mas fui de novo bloqueado, pois o curso de mestrado pretendido não aceitava Farmacêutico sem habilitação!!

Em 1978 fiz dois meses de nivelamento no Instituto Militar de Engenharia – IMERJ e em março daquele ano iniciei o curso de mestrado em Química. Como na instituição não havia orientadores em Química de Produtos Naturais fiz meu mestrado em Química Orgânica, sintetizando compostos tricíclicos com atividade farmacológica. Entreguei a versão final da dissertação no dia 22 de outubro de 1980, dois meses depois de tê-la defendido. Neste mesmo ano conclui a habilitação em Farmacêutico Bioquímico Industrial na Faculdade de Farmácia da UFRJ.

Os questionamentos que fiz ao longo da minha formação sobre o propósito e o método da ciência afastaram-me da vida acadêmica!

Ademais, em 1979, a chegada do meu primeiro filho, Hermano, aumentou a minha responsabilidade e reduziu um pouco a minha impulsividade. Em 1982 nasceu Ymira! Mais responsabilidade ainda…

Neste período fui Farmacêutico na Marinha do Brasil – de 1980 a 1983 -, quando descobri que não me adaptaria a esta forma de trabalhar, já que sempre entendi que o mérito é mais forte que a hierarquia.

Neste ponto da vida, avesso à hierarquia e ao controle da criatividade acadêmica, com uma família, filhos lindos, decidi não ter patrão e sobreviver de um trabalho mais aplicado: a comercialização de alimentos. Essa atividade funcionou até que resolvi comercializar medicamentos, já que sou farmacêutico!

Neste período descobri que, se eu não tinha patrão, era um empregado sem causa, sem ter contra quem me rebelar! Era responsável pela sobrevivência do meu meio de subsistência! E isso se tornava para mim uma atividade estranha, sem criatividade, apesar de autônoma! Numa noite, conversando com o Prof. Eliezer Barreiro, recebi dele uma proposta de fazer doutoramento. Na semana seguinte, ele diz que havia uma bolsa de Desenvolvimento Científico Regional na Universidade Federal do Pará – UFPA.

A minha condição pessoal de vida pedia um afastamento do Rio de Janeiro.
Aceitei.

Em Belém, procurei me adaptar à nova vida… consegui, com muito trabalho…. Assim, voltei à atividade acadêmica e decidi que a partir de então, esta seria minha vida! Como bolsista de DCR na UFPA fui desenvolvendo atividades acadêmicas que me proporcionaram em 1986 o primeiro projeto de pesquisa, financiado pela International Foundation for Science da Suécia.

Também nessa época publiquei meu primeiro artigo, baseado na minha dissertação de mestrado.

No Laboratório de Pesquisa da Química da UFPA havia muitos livros interessantes em alemão e isso despertou o meu interesse na cultura da Alemanha. Estávamos em 1987 e decidi aprender alemão. Na Casa de Estudos Germânicos da UFPA, conheci o Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (o DAAD) onde concorri a uma bolsa de doutorado, que foi aprovada duas vezes, a primeira, na forma de doutorado-sanduíche, não me interessou, pois queria fazer mais do que um curso na Alemanha, queria experimentar a cultura germânica.

No fim da década de 1980, a situação econômica no Brasil estava muito ruim e as perspectivas não eram alentadoras em termos de concurso para a carreira docente nas instituições federais. As portas de embarque dos aeroportos estavam muito movimentadas, sair do país, era uma opção de sobrevivência.

Cheguei na Alemanha em outubro de 1988, sem vínculo com a UFPA, e depois do período de adaptação e iniciação na cultura alemã, fui para a Universidade de Hamburgo para o doutoramento. O nivelamento foi duro, discussão teórica sobre Química Orgânica, Inorgânica, Analítica, Físico-química e Química Farmacêutica. Consegui ir bem nas três primeiras, mas Físico-química, em alemão, é como Filosofia, somente para nativos. O Professor de Química Farmacêutica falou-me que o Professor Gerhard Rücker de Bonn, que trabalhava com Fitoquímica, poderia ser uma boa opção para o caso de eu não permanecer em Hamburgo. Nesse ponto o destino interveio, mais uma vez na minha vida. A vigilância sanitária de Hamburgo visitou os cinco institutos de química da Universidade e somente o de Físico-química e o Química Farmacêutica permaneceram abertos!

Os demais não reuniam condições seguras de funcionamento!

Estávamos em meados de 1989, fui a Bonn conversar com Prof. Rücker…

A transferência de Universidade, mudando de tema e de orientador era uma temeridade; nunca, nem mesmo um alemão conseguiu mudar tão radicalmente as condições de doutoramento. E o DAAD me recomendou voltar para o Brasil e me candidatar nas novas condições.

Ignorei a sugestão!

Fiz o nivelamento durante o inverno de 1989 e em março de 1990 fui aprovado para o doutorado na Universidade de Bonn, no grupo de trabalho Rücker. Comecei os experimentos em agosto daquele ano e depois de viver as agruras e as venturas como doutorando na Alemanha chegou a hora do Rigorosum, três provas orais sendo duas secundárias e uma principal; Farmacognosia e Farmacologia, as secundárias e Química Farmacêutica, (com detalhes de Fitoquímica), a principal. A de Farmacognosia foi compensada pelo mestrado, mas a de Farmacologia tive que fazer; falei sobre a fisiopatologia das epilepsias, drogas antiepilépticas com mecanismo de ação, isso por que a planta medicinal que estudei é usada para controlar esta doença. Depois de uma hora de arguição, fui aprovado, era 6 de junho de 1994. Na sexta-feira, 10, fiz a prova principal, duas horas discutindo Química Farmacêutica com dois professores da área: Ehrard Röder e meu orientador Gerhard Rücker. Falamos de fármacos em geral; sintéticos, naturais; síntese, determinação estrutural, relação estrutura e atividade, algo de atividade farmacológica e sem mais o que questionar, Rücker perguntou-me sobre a estereoquímica de um “carbono hidroxilado” do terceiro resíduo glicosídico de uma estrofantidina.

E eu respondi: Este resíduo não tem hidroxila!
Com isso a prova foi encerrada.

Voltei para o Rio de Janeiro em 1º de outubro de 1994.

Em 18 de março de 1995 estava de novo em Belém, na UFPA, onde atuei como Professor Visitante no Curso de Farmácia até dezembro de 1996. Na metade deste ano, o CNPq aprovou um projeto de pesquisa que submeti e a CAPES concedeu uma cota de 14 bolsas (1 DCR, 2 de aperfeiçoamento e 11 de iniciação científica). Com este aporte de recursos comecei minha carreira como professor efetivo da UFPA, pois no dia 7 de janeiro de 1997 tomei posse no cargo de professor universitário mediante concurso público de provas e títulos.

No início dos anos 2000, mais uma vez eu estava no lugar certo, na hora certa… fui substituir um membro de um grupo de trabalho no Ministério da Saúde, que estava discutindo questões relacionadas à Fitoterapia, com o passar do tempo e com o desenvolvimento das políticas do setor, como a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos e a de Práticas Integrativas e Complementares; e com a reorganização da Farmacopeia Brasileira, esse grupo tornou-se um Comitê Técnico Temático da FB e graças a muitos fatores alcancei mais um patamar da carreira profissional de um farmacêutico, contribuo para a construção da Fitoterapia no país, com muito orgulho e compromisso!

E hoje tenho a honra de ser acolhido na Academia Nacional de Farmácia, e a indicação da cadeira 72, cujo patrono é o Professor Alberto Teixeira Paes, tem para mim um significado especial, pois percebo algumas convergências nas nossas trajetórias, tal como: fomos farmacêuticos militares, professores universitários concursados, realizamos pesquisa na área da química, fomos proprietários de farmácia e lutamos pela dignificação da profissão farmacêutica. Além do mais, gosto muito de Minas Gerais…

Segundo o amigo e acadêmico Gerson Pianetti, o Professor Alberto Paes participou, sempre e ativamente, de atividades sociais e associativas, liderando durante decênios, todos os momentos reivindicatórios da Farmácia em Minas. Assim, fundou e dirigiu por vários biênios, a “Associação Mineira de Farmacêuticos” e fundou o jornal intitulado “Minas Farmacêutico”, no qual exerceu a função de Diretor e Redator Chefe.

Foi membro honorário da Academia Brasileira de Farmácia e de outras associações profissionais. Foi ainda Membro Correspondente do Colégio de Farmacêuticos de Rosário, na Argentina, Membro Correspondente da Real Academia de Farmácia de Madrid, e exerceu representatividade na UFMG além de dirigir a atual Faculdade de Farmácia e Bioquímica da UFMG, tendo sido agraciado com o honroso título de “Professor Emérito”. Foi proprietário da “Farmácia Paes”, no Bairro Floresta, em Belo Horizonte.

Em “Dias Melhores”, artigo publicado em novembro de 1939, na “Revista Minas Farmacêutica” onde foi diretor e redator chefe, escreveu o seguinte: “Os Farmacêuticos, inspirados no progresso rápido da Profissão, trabalham ativamente em todos os setores de suas atividades em prol de uma Farmácia maior: na Indústria, no Comércio, no Laboratório, na Cátedra, a febre de progredir não admite o descanso”. E mais adiante: “Na Cátedra, o esforço verdadeiramente heroico de muitos abnegados é, sem favor, a pedra angular no progresso científico dos nossos farmacêuticos. É no ensino racional da Farmácia que se depositam as maiores esperanças de sua grandeza e de sua emancipação científica e econômica”.

Antes, em dezembro de 1933, no artigo “Ensino e Tempo Integral”, escreveu o Prof. Paes: “No que diz respeito à reforma de ensino, um dos fatores capitais da melhoria corre por conta do Tempo Integral. Penso que pouco ganhará a Farmácia com uma reforma de ensino que não cogitar, precipuamente, da estabilidade social do Professor, para que possa exercer o tempo integral”. E mais adiante prossegue: “Assim, o atraso que se nota no ensino farmacêutico, não corre por conta da inépcia do Professor, como poderá parecer à primeira vista, mas corre mais conta de impossibilidade de os Professores estarem à frente de suas cátedras durante o tempo necessário à formação dos Farmacêuticos, que o Brasil reclama para o desenvolvimento econômico”.

Hoje, com os avanços da gestão universitária, temos “Dias Melhores”, mas ainda há muito a evoluir na cátedra, apesar dos avanços recentes, as palavras de Paes devem ser relembradas nas próximas discussões sobre a teoria e a prática do ensino farmacêutico….

Nesses quarenta anos de vida acadêmica, alguns pensamentos tive sobre o que me realizaria como professor, pesquisador e farmacêutico. Gradativamente a vida (ou de novo, o destino) foi me proporcionando respostas: aprovar projetos de pesquisa, publicar resultados, formar e qualificar novos farmacêuticos, avaliar projetos e publicações, contribuir para a implantação de uma política pública (a de Fitoterapia), escrever livros… e agora, ter tudo isso perpetuado como membro da Academia Nacional de Farmácia!

É, será que a posteridade já chegou para mim?!

Não, sinto que ainda tenho muito a contribuir para a sociedade, que através de seus impostos (na maioria estaduais e municipais) mantem a estrutura que me formou, me qualificou e na qual exerço meu ofício de professor. Tudo que consegui até agora ofereço em agradecimento aos que me educaram, me formaram, me qualificaram e aos que hoje me permitem seguir produzindo esse agradecimento na forma de produtos acadêmicos!

Obrigado meus pais, meus irmãos, meus filhos, minha querida companheira, meus colegas de faculdade, de profissão, meus colegas e amigos de trabalho, minhas queridas colaboradoras no GTWB, meus alunos de todos os tempos, ao CTT_AP e agora, à Academia Nacional de Farmácia por acolher-me em seu quadro e propiciar este momento maravilhoso!

Acima de tudo, agradeço a Deus que me proporcionou viver esta sucessão de momentos, este mosaico de imagens e sentimentos que é a vida!

Que Ele conceda graças àqueles que contribuíram para que eu chegasse a este momento! Obrigado!

Muito obrigado!

Belém, 15 de maio de 2015.