19 nov 2018

NILCE CARDOSO BARBOSA

Discurso Cerimônia de Posse
Academia Nacional de Farmácia
Nilce Cardoso Barbosa
09 de agosto de 2007

Ilmo. Senhor Acadêmico Caio Romero Cavalcanti
Digníssimo Presidente da Academia Nacional de Farmácia,
Senhores componentes da Mesa,
Autoridades Presentes,
Senhoras e Senhores,

Boa Noite!

A grande honra a mim outorgada pela distinção de ser incluída como membro da Academia Nacional de Farmácia pode apenas, creio eu, ser compreendida como um encorajamento aos meus empreendimentos em prol do
desenvolvimento humano na área saúde, e não, obviamente, como um julgamento final sobre eles.
Aceito esta honraria consciente dos laços que unem todos aqueles que, onde quer que estejam, dirigem esforços para construir uma realidade de acesso à saúde equânime e fazer com que os profissionais nesse processo envolvidos
sirvam, verdadeiramente, às causas e necessidades da humanidade.

Nenhum profissional pode sozinho, realizar a tarefa sobre a qual falamos. É, portanto, com profunda gratidão que aceito ocupar a cadeira número 80 desta Academia, também em nome de todos aqueles que me acompanharam e têm me acompanhado na concretização destes ideais.

Manifesto meu apreço a aqueles que me indicaram e aos relatores por tal deferência. Assim, coloco-me hoje, aqui, com senso de humildade, com senso de história e com senso de construção coletiva.

O desejo de interferir erradicando ou minimizando o sofrimento do homem não é, de modo algum, novo; e a aspiração de viver em uma sociedade, cujas relações se fundamentam pela confiança e onde os indivíduos são providos de direitos e oportunidades, também não é original. Entretanto, buscar compreender como essa forma de estar no mundo de nós tomou conta só se torna possível pela perspectiva ontológica.

Em oposição à tradição filosófica anterior, o filósofo alemão Martin Heidegger já dizia que a forma como o ser humano enfrentar este problema – o de ser ou de não ser – comprometerá a sua existência. Ao despertar para ele,
reconhece que seu ser é incerto, finito e incompleto, compreendendo que vive a partir da incerteza, do reconhecimento de sua grande vulnerabilidade e emergindo para a existência de um modo característico e próprio.

E, ao contrário do que ocorre com outros seres que habitam este mesmo planeta, o ser humano se posiciona ante as coisas de seu mundo. Em seu atuar, não somente reage ao que acontece, mas também responde de acordo com a
maneira como observa a si mesmo, ao mundo e às coisas que nele habitam.

Essa resposta é definida por suas disposições, atitudes e emocionalidades.

Assim, ser humano é uma forma de existência em permanente estado de escolha e de deslocamento.

Que essas fragmentadas reflexões filosóficas sejam, neste ato, meu tributo à minha família, dentro da qual estruturei este individual modo de interagir com o mundo e me inspirei aos ideais de justiça e igualdade. Acrescento, nesta
deferência, minha tão presente Ituverava, que me proporcionou uma infância e uma juventude livres de dogmas ou modelos não humanitários. Este passado tem fundamental importância, pois é nele em que reconheço os elementos
cognitivos e valorativos, herdados ou apreendidos, e que têm definido minhas decisões e meu comportamento ao longo do tempo.

Do mesmo modo, quero enaltecer a figura do patrono da cadeira número 80 da Seção de Farmacologia e Higiene, que agora me cabe. Com certeza, causoume especial alegria sabê-lo natural de Minas Gerais, meu Estado, não de
nascimento, mas de coração. Sua discreta biografia, os traços humanos apresentados, os ideais defendidos e o desenho de sua trajetória profissional, precocemente interrompida aos 43 anos, serão por mim relembrados e
honrados no fazer jus à ocupação deste espaço. Que a identificação quanto à rebeldia e ao empreendedorismo seja facilitadora da realização desta promessa.

E chegamos, finalmente, à redundante – embora continuamente oportuna – reverência à Saúde, musa inspiradora de nosso fazer profissional, que, a partir das definições da Conferência de Alma-Ata, em 1978, passou a ser
considerada pela Assembléia Mundial de Saúde não mais como um fim, mas como um meio para se atingir o pleno Desenvolvimento Humano. Nesse sentido, garantir o completo direito à saúde significa, dentre outras coisas, a
adoção de uma visão global dos problemas existentes e o reconhecimento de um complexo de variáveis que se inter-relacionam. Essa visão ampliada da saúde, bem como o reconhecimento da importância dos determinantes sociais,
pressupõe mudanças na forma de agir e produzir Saúde como um todo e também na prática farmacêutica. Para tanto, são muitos os desafios ainda a serem transpostos pelos profissionais de todas as classes.

A prática específica – o fazer – deve estar baseada em um corpo de saberes que necessitam transformar-se ao longo do tempo, acompanhando as descobertas da ciência e as demandas sociais.

Ao analisarmos a exclusão no âmbito da saúde, vamos constatar cerca de 125 milhões de pessoas, somente na América Latina e Caribe, sem acesso aos serviços básicos de saúde; 230 milhões sem qualquer proteção social pública ou privada; 44 milhões sem proteção social de saúde; 120 milhões sem acesso aos serviços de saúde por razões econômicas; 107 milhões por razões geográficas; e 152 milhões sem acesso à água potável e ao saneamento básico.

Comprometer-se com a mudança deste quadro passa por entender os determinantes sociais da saúde, ou seja, as condições em que as pessoas vivem e trabalham, pois têm elas impacto direto na saúde.

Nossos grande desafio é vencer as iniqüidades nas condições sociais e de saúde e o acesso aos serviços sociais e de saúde, pois, para além de serem sistemáticas e relevantes, são também evitáveis e injustas. Políticas sociais
intersetoriais para geração de trabalho e renda, educação, habitação, saneamento, saúde, previdência e assistência social, ciência e tecnologia, são componentes desse caminho. Assim, criar-se-á a base sobre a qual será possível garantir a felicidade dos indivíduos, sua realização como pessoas e sua participação coletiva. E a nós, profissionais da saúde, caberá colocar como prioridade de pauta o resgate do sentido humanitário da ação em saúde.

Chego à Academia Nacional de Farmácia imbuída deste compromisso e aos senhores membros, que tão generosamente me estão acolhendo, declaro-me novamente honrada e finalizo dizendo que vim em busca do convívio enriquecedor e do ensejo único de partilhar da memória que emana desta histórica instituição.

Muito Obrigada!