19 nov 2018

MARIA INÊS ROCHA MIRITELLO SANTORO

Farmacêutica-Bioquímica, Doutora em Farmácia / Síntese de Fármacos (USP). Pós-doutoramento nos laboratórios da “United States Pharmacopeia”, em Maryland, USA. Livre-Docente (USP), Professora Adjunta (USP), Professora Titular (USP). Vice-Chefe do Departamento de Farmácia nos anos de 1990 e 1991; Vice-Diretora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo no período de junho de 1991 a março de 1992; Diretora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo, de maio de 1992 a maio de 1996; Membro do Conselho Universitário (1990-1996); Coordenadora da Câmara de Núcleos de Apoio à Pesquisa da USP, até novembro de 2011; Representante da FCF no Conselho Central de Pesquisa até novembro de 2012; Suplente da Comissão de Fundo de Pesquisa da USP.

Membro da “New York Academy of Sciences”; Membro da “Association of Official Analytical Chemists International” e Fundadora, no Brasil, da Seção Latino-Americana e do Caribe. “Associate Referee do AOAC Committee on Drugs and Related Topics” e Presidente da Seção Latino-Americana e do Caribe da “AOAC INTERNATIONAL”, (1994-1997). Diretora do “AOAC INTERNATIONAL Board of Directors” (1998 – 2004). Membro do “Reference Standard Expert Committee” da Farmacopéia Americana (2005-2010). Membro do “Small Molecules 2 Expert Committee” da Farmacopéia Americana (2010 -2015). “Chair” do “Medicines Compendium Expert Committee” da Farmacopéia Americana no período de 2012 a 2014. Membro do “Council of Experts Executive Committee” da Farmacopéia Americana no período de 2012-2015.

Membro do Conselho Deliberativo do Hospital Universitário da USP (1992-1996). Membro do Conselho Deliberativo da Fundação para o Remédio Popular (FURP) (1992-2008), e suplente a partir desta data. Coordenadora do Programa de Iniciação Científica (PIC USP) na Universidade de São Paulo, a partir de julho de 2009 até novembro de 2012. Assessora “ad hoc” da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), FACEPE (Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Governo do Estado de Pernambuco), CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e FAPDF (Fundação de Amparo à Pesquisa do Distrito Federal), e outras.

Revisora de revistas nacionais e membro do Conselho Editorial Internacional da Revista Educación Química (México) e da Acta Farmacéutica Bonaerense (Argentina). Revisora do “Bulletin of the Pan American Health Organization” e outros periódicos nacionais e internacionais. Coordenadora de projetos de pesquisa em análise de medicamentos, no Departamento de Farmácia da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo, bem como de projetos integrados envolvendo a Organização Panamericana da Saúde e Organização Mundial da Saúde.

Pesquisadora do CNPq (Nível 1A) até o ano de 2013. A pesquisa tem sido realizada na área de medicamentos e as linhas de investigação são o desenvolvimento de metodologia para análise de medicamentos e aplicação em estudos da estabilidade química de preparações farmacêuticas. Orientou 22 dissertações de Mestrado e 07 Teses de Doutorado que foram defendidas e aprovadas. Participou em mais de uma centena de bancas examinadoras. Publicou cerca de 140 trabalhos de pesquisa em revistas nacionais e internacionais, 01 Manual de Segurança, 02 livros, 02 capítulos de livros e apresentou cerca de 260 trabalhos em congressos nacionais e internacionais. As atividades docentes têm-se desenvolvido no Departamento de Farmácia da FCF, disciplina de Controle Físico e Químico de Qualidade de Medicamentos e Cosméticos. É responsável pela disciplina de Pós-Graduação “Preparação e Emprego de Padrões Farmacêuticos”, do curso de Pós-Graduação em Fármaco e Medicamentos (Mestrado e Doutorado) da FCF/USP e colaboradora em outras. Ministrou cerca de 40 cursos e conferências no Brasil e no exterior.

Discurso de posse como Membro Titular na Academia Nacional de Farmácia

Exmo. Sr. Caio Romero Cavalcante
Diretoria da Academia Nacional de Farmácia

Prezados colegas, amigos e familiares

A história da atividade farmacêutica no Brasil, em seus primórdios, é muito imprecisa, talvez por ter se iniciado já a partir do próprio descobrimento. Assim sendo, os documentos (manuscritos, cartas, pergaminhos, monografias, livros etc.) sobre o início da atividade são bastante escassos. O que se sabe é que a população nativa brasileira já criara seus próprios meios para curar enfermidades. Quando os portugueses chegaram à Nova Terra, encontraram aqui os pajés atuando na cura, junto às suas tribos. Eles revelaram possuir conhecimentos sobre as qualidades terapêuticas de inúmeras raízes e folhagens utilizadas na recuperação da saúde de seu povo.

Durante o período Brasil Colônia, medicamentos e drogas podiam ser adquiridos nas casas comerciais, chamadas boticas. Nas regiões onde não existiam boticas, as pessoas eram atendidas pelos mascates, viajantes que transportavam, pelo interior do país, drogas e medicamentos. Algumas vezes estes indivíduos, eram, ao mesmo tempo, mascates e curandeiros, indicando medicamentos para todas as doenças, inclusive para as dos animais.

Aos poucos as boticas jesuítas passaram a atender ao povo em geral que, aliás, as preferia ao invés daquelas dirigidas por meros comerciantes que costumavam errar no aviamento de receitas e não tinham escrúpulos ao substituir as drogas prescritas.

As Ordenações do Reino, primeiro contexto legislativo a vigorar no Brasil, já no século XVI, impunham regulamentos à matéria, estabelecendo que a distribuição de drogas era privativa dos boticários, mas tal regulamentação não podia surtir efeitos porque qualquer pessoa, mesmo analfabeta ou imbuída de interesses puramente lucrativos podia, com relativa facilidade, obter do Comissário Físico-Mor a “Carta de Aprovação” como boticário, ficando, portanto, habilitado a exercer o comércio de drogas e medicamentos.

A criação dos cursos de Farmácia foi conseqüência da Lei de 3 de outubro de 1832, da Regência, em nome do Imperador D. Pedro II, que instalou os cursos nas Faculdades de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro. Entretanto, o da Bahia só começou a funcionar em 11 de março de 1834.

A antiga “Escola de Pharmacia de São Paulo” foi criada em 12 de outubro de 1898. Em 1899, começou seu funcionamento na Rua Brigadeiro Tobias, esquina da Ladeira de Santa Efigênia. Na época do reconhecimento federal, a Escola, além do curso de Farmácia, já havia instalado o curso de Odontologia (criado em março de 1901) e também mantinha o curso de Obstetrícia.

A Escola desenvolveu-se rapidamente e logo alcançou notoriedade, atraindo grande número de estudantes. Surgiu assim a necessidade de ampliação de suas instalações. Foi quando se iniciou, em 5 de novembro de 1904, a construção do edifício da Rua Três Rios.

Em 1932, sob a direção e orientação do Prof. Benedito Montenegro, verificou-se uma reforma radical, com professores novos, novo pessoal administrativo e novas instalações. O novo estabelecimento passou a funcionar com a denominação de “Faculdade de Farmácia e Odontologia”. Com a criação da Universidade de São Paulo, em 1934, nela foi então incluída a “Faculdade de Farmácia e Odontologia da Universidade de São Paulo” que, anos depois, foi chamada de “Faculdade de Farmácia e Bioquímica” (1962) e, em seguida, “Faculdade de Ciências Farmacêuticas” (1970).

Em 1960, prestei o exame vestibular e fui aprovada na Faculdade de Farmácia e Odontologia. Vi, ao ingressar, que como estudante daquela grande Universidade, passava a usufruir de uma gigantesca e cara estrutura mantida pela sociedade, o que me deu a oportunidade, não só de contar com um amplo leque de possibilidades de formação – desde a profissional, passando pela ciência e pelas artes – mas como o privilégio de poder conviver no melhor ambiente para desenvolver-me plenamente como cidadã e como ser humano.

Os anos como estudante na USP foram muito ricos e, por vezes, conturbados pelo difícil momento político pelo qual passava nosso País. Ainda na graduação fui convidada pelo Prof. Dr. Quintino Mingoia para exercer o cargo de monitora da disciplina de Química Farmacêutica, por ele ministrada. Pouco tempo após a colação de grau, obtive uma das primeiras bolsas da recém-criada FAPESP, sob a orientação do mesmo professor.

No ano seguinte, em 1965, fui indicada como assistente do Prof. Mingoia. Passei então a exercer o cargo de docente da disciplina de Química Farmacêutica. Já neste ano iniciei o trabalho de pesquisa visando a obtenção do título de Doutor. Com a volta definitiva do Professor Mingoia para a Itália, seu país de origem, continuei meu doutorado sob a orientação do Prof. Dr. Paulo Carvalho Ferreira. Defendi o doutorado, em Síntese de Fármacos, em 1º de março de 1973.

A importância e a influência destes dois professores foram marcantes e fundamentais para minha formação científica, profissional e pessoal. A eles, neste momento, presto a mais profunda e sincera homenagem. Foi um privilégio tê-los conhecido e ter tido a oportunidade de aprender os conhecimentos que me foram transmitidos, além do exemplo de vida, que norteou toda minha vida acadêmica.

Em 1978, mudei da Química Farmacêutica, para a recém-criada Disciplina de Controle Físico e Químico de Qualidade de Medicamentos e Cosméticos, no mesmo Departamento de Farmácia da FCF.

No mesmo ano, fui para os Estados Unidos, onde realizei meus estudos de Pós-Doutorado, nos Laboratórios da Farmacopéia Americana, em Rockville, MD, USA. Foi um período muito rico cientificamente, aprendi novas técnicas, estudei muito e fiz muitos amigos. Desde então, nunca perdi meus laços de trabalho e de amizade com aquela instituição e aquele país. Atualmente sou membro do “Reference Standards Expert Committee (RSEC)”, trabalho voluntário que realizo com grande prazer e dedicação. Sinto-me, hoje, duplamente feliz, pois além de estar sendo homenageada, o estou fazendo juntamente com o Dr. Roger Williams, que é o CEO (Chief Excecutive Officer) da United States Pharmacopeia.

A realização do Pós-Doutorado, nos Estados Unidos, proporcionou-me também outros contatos. Assim, de 1997 a 2004, fui membro do “Board of Directors” da “Association of Official Analytical Chemists (AOAC International)”, com a qual também mantenho ligações profissionais até hoje, fazendo parte de três de seus “Committees”.

Seguiram-se os outros concursos da carreira universitária: em 1984, o de Livre-Docência; em 1986, o de Professor Adjunto, e, em 1990, o de professor Titular.

Publiquei, durante minha vida acadêmica, iniciada em 1965, 122 trabalhos científicos em periódicos nacionais e estrangeiros, apresentei cerca de 250 trabalhos em congressos nacionais e internacionais, um livro, alguns capítulos de livros e formei vários Mestres e Doutores. Creio assim, estar cumprindo adequadamente minha missão. Afirmo sempre que, se tivesse que recomeçar, seguiria novamente a vida acadêmica, que sempre me proporcionou e, continua a proporcionar, inúmeras realizações e satisfações.

No período de 1990 a 1992 fui Vice-Diretora da FCF-USP, e de 1992 a 1996, Diretora da Faculdade. Sempre fui muito ciente da responsabilidade que havia assumido e empenhei todos os meus esforços para corresponder aos anseios dos colegas, funcionários e alunos da Unidade que me coube dirigir. Aprendi que prioridades devem ser estabelecidas, aproveitando-se das diferentes oportunidades que vão surgindo ao longo do tempo. Na Faculdade e na Universidade é necessário dar saltos qualitativos e quantitativos, instalar centros interdisciplinares para avançar em novas direções. Objetivos podem ser definidos. Metas devem ser divulgadas, pois é preferível a frustração de metas não atingidas do que o vazio de estruturas sem objetivo.

Durante o período em que estive na direção da Faculdade, esforcei-me no sentido de aumentar o engajamento da Unidade nos problemas nacionais e no contexto internacional, uma vez que este tipo de envolvimento é fator preponderante para o desenvolvimento tecnológico e científico do País. Dei, também, muita atenção aos problemas prioritários, sempre incentivando a pesquisa, em especial, aquela de caráter interdisciplinar.

Preparar a USP e, em particular, a FCF para as próximas décadas exige dedicar-se à abertura de novos espaços para a modernidade e a excelência em matéria de pesquisa e ensino: metas imprescindíveis para a preparação de jovens e o avanço de conhecimento, pois, sem conhecimento e juventude, a crise do presente será somada à perda do futuro.

Pessoalmente, sou avessa a qualquer espécie de acomodação, sou do tipo entusiasta das reformas que perseguem a perfeição. Nego-me, mesmo, a envelhecer para não desenvolver defesas elaboradas contra novas idéias.

As tarefas, muitas vezes, foram árduas. No entanto, nunca dispensei o exercício da inteligência e nem a humildade de estar disposta a reformar a própria mentalidade.

Sinto-me, hoje, honrada pelo convite, e aceito a homenagem com um misto de orgulho, naturalidade, surpresa e a alegria do coroamento de uma vida de trabalho árduo, honesto, apaixonado, despretensioso e sem ambições doentias.

Sinto-me fortalecida pelo calor com que foi recebida minha indicação e agradeço emocionada a todos os colegas que hoje me proporcionaram esta grande alegria. Penso que o meu passado tenha sido a garantia que entendo necessária para enfrentar os desafios que ainda estão por vir. Espero que, para tanto, nunca me falte o poder da decisão, da honestidade, do bom senso e da justiça.

Agradeço a Deus, por ter me indicado o caminho.

Agradeço a todos os presentes. Agradeço aos meus colegas da USP e, em particular aos da FCF. Agradeço aos funcionários da FCF. Agradeço a todos os professores que tive na vida.

Agradeço a todos os meus amigos, e à minha família:
Aos meus tios: Luiz e Dirce (pelas conversas ao telefone)
Tereza e Danilo (desenhos em papel vegetal e nanquim)
Aracy (Pelos almoços….Rua Três Rios e Rua Prates);
À minha irmã: companheira de sempre; aos meus sobrinhos, e aos meus primos;
À minha família adquirida, aqui representada pela Dora e pelo Ivo: os quais tem participado e acompanhado minha vida há mais de 15 anos;
Ao meu genro;
À minha nora;
Ao meu marido, que tem me acompanhado, desde que eu era menina;
Aos meus netos queridos: Raffaella, Giancarlo, Valentina e Luna – a quem quero deixar, além da herança cultural e científica; boas lembranças — e, com quem tenho aprendido tanto! Obrigada por estarem aqui e por terem entrado em minha vida e em meu convívio;
À Nira, minha secretária geral;
Aos meus pais e aos meus sogros, que não estão mais aqui, e,
Aos meus filhos queridos: Carla e Meco, que foram, com toda a certeza, os meus maiores e melhores trabalhos publicados e, os mais citados….e como são citados! Muito obrigada por vocês existirem e muito obrigada por estarem aqui.

Mais uma vez, muito obrigada a todos!

São Paulo, agosto de 2009.