10 dez 2018

JOÃO MASSUD FILHO

Graduado em Ciências Biomédicas pela Escola Paulista de Medicina (EPM) – UNIFESP em 1970, em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo (USP) em 1971 e em Medicina pela Escola Paulista de Medicina (EPM) – UNIFESP em 1974. Pós-Graduado em Medicina Psicossomática pelo IBPGE, São Paulo, em 1987 e em Medicina Farmacêutica pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) em 2000.

Professor e Coordenador do Curso de Especialização em Medicina Farmacêutica no Instituto de Ensino e Pesquisa Sírio Libanês. Consultor Sênior em Desenvolvimento de Medicamentos, Presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Farmacêutica. Tem experiência de 35 anos em pesquisa clínica, desenvolvimento de novos medicamentos, farmacovigilância e assessoria médico/MKT. Fellow Honorário da Faculdade de Medicina Farmacêutica – UK. Coautor do livro “Atualização Terapêutica”, várias edições desde 2005, e do livro “Economia e Gestão em Saúde”, de 2009.

Discurso de posse como Membro Titular na Academia Nacional de Farmácia

Ilmo. Sr. Prof. Dr. Lauro Domingos Moretto
DD Acadêmico Presidente da Academia Nacional de Farmácia,
Senhores componentes da mesa,
Autoridades presentes,
Senhores e senhoras:

Com muito orgulho e cheio de alegria adentro esta nobre academia como seu novo acadêmico.
Esta possibilidade me foi aberta pelos ilustres acadêmicos Dr. Lauro Domingos Moretto e Dr. Dagoberto Garcia Brandão.

Desde a adolescência interessei-me muito pela terapêutica, inspirado na necessidade de entender a doença de Parkinson e seu tratamento, que acometeu o meu pai quando eu tinha apenas 3 anos de idade.

Desde logo percebi que a medicina não poderia caminhar longe da farmácia. De que vale um ótimo diagnóstico sem a terapêutica e vice-versa. Sempre tive para mim que quem não respeita o passado não merece o futuro.

Assim olhando para trás veremos que já na antiguidade havia menções sobre doenças e substâncias que poderiam interferir na sua evolução. As plantas e os compostos químicos faziam companhia aos rituais religiosos que visavam curar as enfermidades. Já na Bíblia havia referência ao uso do placebo com seu potencial efeito benéfico em alguns casos.

Na idade media iniciou-se a compilação dos “medicamentos” para uma Farmacopeia. No final do século 18 houve o primeiro estudo clínico comparativo feito pelo oficial da marinha inglesa James Lind, para a prevenção e tratamento do escorbuto.

Durante séculos o ensino e a prática da medicina e farmácia estiveram juntos. Os irmãos Cosme e Damião, um médico e outro farmacêutico, são os patronos destas 2 áreas da saúde. Foram, por suas práticas, perseguidos pelo imperador Diocleciano e se tornaram mártires cristãos de origem árabe.

A tuberculose dizimou centenas de escritores, poetas, músicos ainda muito jovens por falta de medicação adequada. Epidemias diversas como a varíola, cólera, peste bubônica, febre espanhola, mataram centenas de milhares de pessoas por todos os cantos do mundo. Hoje, graças às vacinas e medicamentos isto já não ocorre com aquela intensidade.

A pesquisa de novos agentes terapêuticos é fascinante porque temos condições de intervir no desenrolar de uma doença. As vacinas e o saneamento básico são responsáveis pela manutenção de milhões de vida. Os antibióticos diminuíram substancialmente as mortes por agentes infecciosos. Infelizmente tive uma irmã que morreu aos 13 anos de idade com febre tifoide, antes da comercialização da penicilina.

Atualmente já não se busca mais medicamentos que só atuam na doença, mas que proporcionem, também, a prevenção de outros eventos, tais como os cardiovasculares no caso dos anti-hipertensivos.

A promoção da saúde, através da busca de melhor qualidade de vida física, psíquica e social tem um papel preponderante. A evolução do conhecimento científico nos últimos 100 anos foi infinitamente superior a todos os séculos anteriores somados.

Em um futuro não muito distante teremos medicamentos mais apropriados para os padrões genéticos dos pacientes, em virtude da grande evolução da farmacogenômica. Todo este desenvolvimento científico parte do princípio fundamental de Hipócrates de que “primum non noscere”, ou seja, primeiro não prejudicar. Assim se desenvolvem as pesquisas clínicas.

Deste modo, ainda que a farmácia e a medicina tenham o seu próprio caminho de evolução acabam no mesmo objetivo que é o ser humano. Daí a necessidade de uma grande parceria. Dentro deste princípio criamos, a exemplo de outros países, um curso de especialização em Medicina Farmacêutica na Universidade Federal de São Paulo, em 1999. Este curso, que nos enche de orgulho, é extensivo a todos os profissionais da saúde ainda que predominantemente frequentado por médicos e farmacêuticos.

Olhando, agora, a realidade de nosso país onde ainda a desigualdade social, as diferenças entre a miséria e a luxúria são exuberantes, refletimos sobre que caminhos a farmácia e a medicina poderão trilhar quando os pacientes morrem nas filas de atendimento médico. E se delas se salvarem, muitas vezes não tem como ter acesso ao medicamento.

Os descasos com a saúde e a educação nos preocupam muito porque trazem um genocídio silencioso, seja da vida ou do conhecimento. Os exemplos de países vitoriosos, muitas vezes arrasados pelas guerras, mostram que só é possível o êxito com investimento maciço em educação e saúde. Enquanto estas 2 áreas forem consideradas, nos orçamentos federal, estadual e municipal, como despesas, continuaremos a mendigar atendimento médico e nadar na ignorância.

Os caminhos futuros passam, obrigatoriamente, pelo ensino, pesquisa e inovação se quisermos ser um pais verdadeiramente desenvolvido. Sempre tive para mim que o maior dos impérios é aquele fundado no espírito e no conhecimento. São indeléveis com o tempo e são os únicos que permanecem como um precioso legado da sabedoria e da superioridade humana em relação aos animais. Nós nos lembramos mais da filosofia de Atenas do que as conquistas de Esparta, assim como dos conhecimentos dos egípcios.

Como médico e professor vejo com tristeza a deterioração da educação e da saúde com a formação de maus profissionais, más condições de ensino e de atendimento médico ferindo brutalmente a nossa cidadania. Vejo na academia nacional de farmácia uma excelente e honrada voz contra este status quo.

Repito que, orgulhosamente, ocuparei a cadeira número 91 cujo patrono é o acadêmico Prof. Dr. Manoel Maria de Moraes Valle. Este ilustre antecessor nasceu no Rio de Janeiro em 1824.
Era doutor em medicina e lente de química mineral da Escola Anatômica, Cirúrgica e Médica do Rio de Janeiro, hoje Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O professor Manoel Maria de Moraes Valle foi membro honorário da Academia de Medicina, presidente honorário do Instituto Farmacêutico, comendador da Ordem de Cristo. Jubilou-se depois de 35 anos de professorado. Foi autor de um compêndio de filosofia que se acredita muito ter contribuído para a consolidação da escola eclética. Morreu em 15 de maio de 1866. Publicou várias obras das quais destaco “Algumas Considerações Sobre a Mendicidade” que foi sua tese apresentada à Faculdade de Medicina.

Destaco, também, “Considerações Gerais Sobre a Farmácia Teórico-Prática”. Obra esta oferecida e dedicada ao imperador D. Pedro II. Este grande exemplo de professor de farmacologia e arte de formular, além do seu conhecimento de filosofia, nos faz pensar que a ciência é um todo dividido em partes para fins didáticos.

Deste modo, resgatamos a nossa humildade ao reconhecermos o quanto ainda temos de aprender. Basta olharmos a grandeza do universo e seus mistérios pouco desvendados. Quando se atinge, então, a comunhão do homem com o universo aflora uma sensação de plenitude e uma harmonia interior que fatores externos não podem destruir.

Meus pais foram vitais para o meu futuro: com ele aprendi o gosto pela leitura e com ela a garra e a perseverança. Por isso acredito que a vida renasce a cada instante: uma flor brota, um ovo eclode, uma célula nasce, uma onda do mar recomeça o ciclo do ir e vir.

A nossa vida e os nossos sentimentos são, também, um eterno renascer: é preciso que a semente morra para que ela germine. Onde iniciamos e onde vamos parar tem sido a pergunta milenar de todos nós. O importante é estarmos conscientes de que quando terminamos uma tarefa ou um pensamento já não somos os mesmos de quando os iniciamos.

Finalmente quero agradecer e dedicar esta honraria de ser membro da Academia Nacional de Farmácia à minha esposa Helena, amiga e companheira inseparável de uma nova jornada, aos meus melhores amigos, coincidentemente meus filhos Leonardo e Leandro, com os quais tenho aprendido a arte de viver a cada instante, às minhas noras Sandra e Marcia, que possibilitaram a vinda dos meus netos Stefano, Vittorio e Tariq que já me fazem sentir realizado e eterno.

Muito obrigado a todos!

São Paulo, 22 de novembro de 2012.